segunda-feira, 4 de julho de 2011

Transporte Desumano - aprenda Transporte Urbano com os profissionais da área


Nota 1: Se você é profissional não só competente como ético e humano, a crítica feita aqui não é pra você. Mas você conhece melhor do que eu o mercado da administração do transporte coletivo a que me refiro. Logo, se você quiser reforçar esse trabalho fazendo um trabalho ou corrigindo algo que eu disse de errado, agradeço seu comentário, e caso não queira se expor, pode fazer um comentário anônimo.

Nota 2: Se você é um daqueles profissionais a quem a crítica feita aqui se aplica e, não tendo argumentos, for usar referências à sua imensurável sapiência ou responder em um nível mais baixo, já vou mandar você tomar... um ônibus.


  1. O transporte coletivo não tem clientes, tem usuários pagantes.
  2. Administrar o transporte urbano é algo feito por subordinados, não por engenheiros.
  3. Quem atua no gerenciamento do transporte urbano tem um currículo ou um emprego a cuidar, e não uma missão.
  4. Se você tiver um belo currículo com especializações, artigos acadêmicos publicados, etc, guarde isso para a prova de títulos do concurso público ou para ganhar um salário mais alto, principalmente se hierarquicamente acima de você houver alguém com uma competência técnica e pessoal questionável apadrinhado por um vereador que deve a sua eleição aos empresários de ônibus.
  5. Como no meio acadêmico em geral, existe a contradição entre o mundo percebido pelas pessoas comuns através do senso comum e o mundo percebido pelos entendidos através de uma invulgar percepção, dada por dimensões superiores, que mostra como o mostrado pelo senso comum é falso. Daí, podemos ter algo como a BHTRANS ser a primeira em qualidade da América Latina sem encontrarmos um belo-horizontino que fale bem da mesma.
  6. Não saber a diferença entre transporte de passageiros e transporte de carga viva não é pecado capital.
  7. Se o usuário reclamar que os intervalos são altos ou os ônibus circulam superlotados no pico, responda que não há demanda para aumentar a freqüência.
  8. Se o usuário reclamar que a tarifa é alta, responda que o valor está defasado.
  9. Integração do transporte púbico não é solução, é ameaça. Eles são belos expedientes para seduzir o povo para que eles votem no candidato da situação, para que o projeto seja implantado ou para que o que existe não seja sabotado pela oposição. Ou, ainda, para que as empresas de ônibus eliminem parte da frota de linhas de IPQ (índice de passageiros por quilômetro) baixo. Mas se for muito além disso, vai provocar a diminuição do número de passageiros pagantes (porque quem usa dois ou três ônibus e paga uma passagem em cada vai ser contado como um único pagando menos).
  10. Se os cálculos matemáticos do dimensionamento de uma linha levarem a intervalos como 40 ou 60 minutos, será isso que o usuário vai esperar.
  11. O poder público não deve se acanhar de falar do transporte clandestino como uma feiosa invejosa fala da namorada "boazuda" do ex-marido. É uma vergonha que os gestores do transporte coletivo regularizado tratem o transporte clandestino como concorrente, e não como ilegal, e tenham departamentos específicos para perseguir motoristas de vans velhas, mas...
  12. A propaganda de que o transporte coletivo está sendo priorizado, com lançamento de livros sobre isso ou eventos sobre isso é sinal de que algo está mudando, ainda que as obras viárias feitas para passarem cada vez mais carros continuem sendo feitas como sempre foram e mal se faça algo como meia dúzia de faixas para ônibus ou uma integração "dois ônibus por uma tarifa e meia".
  13. Funcionários de alto escalão do gerenciamento do transporte urbano estão discutindo soluções com especialistas em congressos de 3 dias ou mais em pleno meio de semana. São os mesmos que, em seus locais de trabalho, dificilmente não estão em reunião, dando entrevista, em outra cidade, etc.
  14. Referências nacionais em Transporte Urbano não surgem onde existe uma visão de futuro com a antecipação a problemas, mas onde os problemas são piores, e grandes demais para estruturas e soluções modestas. São os problemas que estão à frente destes grandes órgãos e instituições, e não vice-versa. Mas para todos os efeitos, são os nomes imponentes da área.
  15. Aproveitar um bom projeto já feito e não executado, colocando-o em prática ajustando-o como necessário, não é solução.
  16. Uma solução em transporte urbano que não possa impressionar os turistas, ganhar votos ou gastar bem mais dinheiro do que o razoável não é solução.
  17. Qualidade em transporte coletivo é desnecessária, até inviável economicamente. Qualquer comércio vai à ruína se não tiver um mínimo de qualidade nos produtos e no atendimento. No transporte coletivo, uma alternativa melhor para as empresas é financiar campanhas de vereadores e prefeitos para que eles segurem a concessão de qualquer forma e impeçam a concorrência de entrar.
  18. Se o usuário está dentro do transporte coletivo, em pé numa densidade de 6 passageiros em pé por metro quadrado, pensando "chega dessa vida, vou comprar um carro usado", isso é falta de consciência social e ambiental.

Nota 3: O título parodia a obra "Transporte Humano", da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos). O livro traz boas idéias, mas que precisam ser levadas a sério.

Abigail Pereira Aranha

Uma garota usuária do sistema de ônibus

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