domingo, 29 de março de 2009

Noam Chomsky: "É muito natural para os intelectuais fazerem as coisas simples parecerem difíceis"

Em Language and Responsibility você chama a atenção para o papel do intelectual na manutenção da ordem social e na defesa dos interesses da elite e, em seguida, critica a idéia de que o conhecimento social (a História, a política internacional etc.) requer ferramentas especiais (teoria, metodologia) que o homem comum não tem e não pode ter. Ao mesmo tempo, a crítica que denuncia essa especialização perversa do conhecimento social é ela mesma especializada (no sentido em que requer tanto empenho, que apenas o “intelectual” ou o diletante esforçado podem fazê-la). Como o intelectual crítico pode escapar do dilema de criticar a especialização e ser ele próprio um especialista?

Eu acho que você deve ser honesto. Se você me pedisse para explicar-lhe a matéria que eu ensino nos meus cursos de pós-graduação em cinco minutos, eu diria que é impossível, porque ela requer muita fundamentação, muito entendimento e requer também conhecimento técnico etc. Mas se você me pedisse para explicar a crise da dívida brasileira em cinco minutos eu diria que sim, porque é elementar. Na verdade, virtualmente tudo relativo à política e à sociedade está na superfície. Ninguém entende as coisas muito bem e até mesmo nas ciências; uma vez além das grandes moléculas, tudo se torna bastante descritivo. As áreas nas quais há um conhecimento significativo e não superficial são raras. Se existe, você respeita; eu não vou falar de Física Quântica porque eu não entendo nada.

Por outro lado, essas outras questões são acessíveis a todo mundo. Uma das coisas que os intelectuais fazem é justamente tornar essas questões inacessíveis, por várias razões, inclusive razões de dominação e de interesse pessoal. É muito natural para os intelectuais fazerem as coisas simples parecerem difíceis. É o mesmo motivo que levava a Igreja medieval a criar mistérios. Aquilo era importante. Leia o grande inquisidor de Dostoievsky, ele diz de uma forma magnífica. O grande inquisidor explica que você deve criar mistérios porque de outra forma as pessoas comuns vão entender as coisas e elas devem ficar subordinadas, então você tem que fazer as coisas parecerem misteriosas e complicadas. Esse é o teste do intelectual. É também bom para eles. De repente, eles são pessoas importantes falando de coisas que ninguém entende... Às vezes, as coisas ficam meio cômicas, como no discurso pós-moderno. Principalmente em Paris, aquilo virou uma caricatura, é tudo jargão. Mas é muito arrogante, há muitas câmeras de televisão, muita pose, todos tentando decodificar e descobrir o significado por detrás das coisas, coisas que você pode explicar para uma criança de oito anos. Não há nada lá.

Essas são formas pelas quais os intelectuais contemporâneos, inclusive aqueles na esquerda, criam grandes carreiras, conseguem poder, marginalizam as pessoas, intimidam etc. Nos Estados Unidos, por exemplo, e, na verdade, em boa parte do terceiro mundo, muitos jovens militantes se sentem simplesmente intimidados pelo jargão incompreensível que vêm dos movimentos intelectuais de esquerda, que é impossível de entender, e faz com que as pessoas sintam que não podem fazer nada porque, a não ser que de algum modo entendam a última versão pós-moderna disso e daquilo, não podem sair às ruas e organizar as pessoas pois não são suficientemente inteligentes. Pode ser que a intenção não seja essa, mas o efeito é uma técnica de marginalização, controle e interesse próprio. As pessoas ganham prestígio, viajam bastante, vivem em altos círculos etc. Paris é talvez a versão mais extrema disso. Lá virou quase uma caricatura, mas você encontra também em outros lugares. Por outro lado, a pergunta que você deve fazer em relação a esse ponto é a seguinte: se há uma teoria ou conjunto de princípios ou doutrinas que são muito complicados e você tem que estuda-los, peça que lhe expliquem com palavras simples. Se alguém puder fazê-lo, então leve a sério. Peça para um físico, ele pode fazê-lo. Se há algo sobre uma experiência em Física que eu não compreendo (o que acontece com freqüência) eu posso procurar meus amigos no departamento de Física e pedir para que eles me expliquem, eu digo o nível no qual eu quero entender e eles podem fazê-lo. Da mesma forma que eu posso explicar para eles algo que esteja acontecendo num seminário de pós-graduação em Linquística, nos termos e com os detalhes que eles queiram entender - eles terão uma idéia.

Tente perguntar para alguém lhe explicar o último artigo de Derrida1 ou outro qualquer em termos que sejam compreensíveis. Eles não podem fazê-lo. Pelo menos não puderam fazer para mim, eu não entendo. E eu acho que as pessoas devem se perguntar que grande salto na evolução ocorreu que capacita as pessoas a terem essas percepções fantásticas sobre tópicos que ninguém entende muito bem e que elas não conseguem repartir com as pessoas comuns. As pessoas devem ser muito céticas quanto a isso. Na minha opinião, é apenas mais uma técnica pela qual os intelectuais dominam as pessoas.

CHOMSKY, Noam. Notas sobre o anarquismo. Tradução de Felipe Corrêa, Bruna Mantese, Rodrigo Rosa e Pablo Ortellado. São Paulo: Editora Imaginário e Sedição Editorial, pág. 135 - 7. O capítulo, “Anarquismo, Intelectuais e o Estado”, é parte da entrevista “Os Intelectuais, o Estado e os Meios de Comunicação”,conduzida por André Ryoki Inoue e Pablo Ortellado em novembro de 1996 e publicada na edição “Democracia e Autogestão” da revista Temporaes em 1999 pela Editora Humanitas de São Paulo.

1 Jacques Derrida, “filósofo da escola do desconstrutivismo, uma metodologia analítica que vem sendo aplicada na Lingüística, no Direito, Literatura e Arquitetura” (pág. 210)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Alimentos para o bom humor

Especialista dá dicas de uma dieta alto astral e gostosa para o dia-a-dia

Especial para O Tempo

Você está se sentindo irritado, cansado, desvitalizado, estressado e com insônia? Hora de tomar consciência do seu ritmo de vida, de trabalho, rever suas opções, de parar de fazer coisas por obrigação e mudar o seu estilo de vida.

Saber se alimentar, ou melhor, tirar proveito dos alimentos pode ser uma ótima saída. Afinal, uma mudança em seus hábitos pode se traduzir em qualidade de vida e saúde.

É o que propõe Conceição Trucom, química, cientista, palestrante e escritora sobre temas voltados para alimentação natural, bem-estar e qualidade de vida. Segundo ela, nos alimentamos mal "porque a indústria alimentícia lava nossas mentes para viver de fast food, alimentos processados e industrializados". "O melhor seria dizer a indústria das doenças", afirma.

Para ela, "quem entra nessa propaganda troca o imediatismo do prazer subnutrido e iludido pelo desamparo da desvitalização e doenças. Deixamos de ser vítimas quando nos desvinculamos do alimento industrializado".

A cientista diz que é preciso ficar atento para introduzir na dieta alimentos que têm o poder de estimular o bom funcionamento do sistema nervoso, desintoxicar o fígado e intestinos, acabar com a irritação e espantar a tristeza. "Valorize e tenha uma boa cumplicidade com os alimentos que facilitam a limpeza das impurezas do organismo como o excesso de adrenalina que causa estresse e ansiedade, ou dos cortisóis que causam melancolia e depressão."

Os alimentos orgânicos devem ser sempre privilegiados, por motivos óbvios. "Eles apresentam ação alcalinizante dos líquidos corporais, gerando um metabolismo mais harmônico e sereno, estado importante para meditar e refletir. São bem indicados para relaxar, baixar a bola das expectativas, enxergar os aspectos positivos de cada desafio, criar soluções e alternativas", diz Trucom.

Alguns alimentos, ensina ela, conseguem prevenir as complicações da ansiedade acumulada porque batem de frente com sua química nociva. "Eles se opõem, por exemplo, aos radicais livres, que minam nossa energia e resistência sem dó."

Mas é importante a regularidade. Não basta comer esses alimentos de vez em quando. É preciso constância, de preferência todos os dias porque eles estimulam a ótica positiva da vida e apresentam uma composição alquímica que nutre também a alma e o espírito.

Além da introdução desses alimentos para lá de alto astral, a especialista recomenda a prática de exercícios ao ar livre, caminhadas, alongamentos, dançar, fazer ioga, meditar e respeito ao corpo.


Publicado em: 22/02/2009

O Tempo, http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=104059

terça-feira, 17 de março de 2009

De que adianta trocar a burka por minissaia, tailleur ou topless, se a frigidez é a mesma?

Abigail Pereira Aranha

Nos países muçulmanos na África, pelo menos 3 milhões de mulheres por ano são vítimas da mutilação genital, a retirada do clitóris para evitar o prazer. Na Nigéria e no Irã, a suspeita de adultério leva centenas de mulheres à morte por apedrejamento todo ano. No Paquistão, o estupro coletivo continua sendo uma das formas de punição de mulheres consideradas desonradas, entre os grupos mais radicais.1 Nos países muçulmanos, a mulher tem que andar coberta dos pés à cabeça e não pode andar sozinha. O Afeganistão tem a burka, que cobre até o rosto da mulher. Uma "revolução" islâmica jogou o Irã num regime teocrático. O líder dessa "revolução", o aiatolá Khomeini, deixou seus propósitos claros ao assumir o poder em 1979: livrar o país de qualquer influência ocidental.

Aqui no Brasil e nos outros países ocidentais, temos a minissaia. Pra alguns, é um escândalo até hoje. Mas nos países mais liberais e mais evoluídos em termos de dignidade humana a mulher aproveita essa liberdade e faz, pensa e vive o que as mulheres dos países muçulmanos estão impossibilitadas de viver? Será que quem usa minissaia é mais liberal que quem usa saia ou vestido comprido? Será que as mulheres daqui se não são mais liberais pelo menos têm menos "machismo"? Nem sempre.

A mulher deixou de se casar na adolescência com alguém escolhido pelos pais, mas não é raro o casamento por interesse. Uma mulher pode usar uma minissaia ou um short, mas não ser menos puritana que uma mulher da década de 50.

Num país, a mulher se casa nova e vive pro marido e pros filhos. No outro a mulher se casa mais tarde e engravida ou faz dieta pra salvar o casamento2, e se não consegue engravidar, faz tratamento. Num país a mulher não sai de casa sem um homem da família. No outro, a mulher parece ter alergia a homem, mesmo tratando o homem bem. Num país, os pais escolhem o marido da mulher. No outro, a mulher escolhe o marido pelo dinheiro ou pela canalhice, ou escolhe um marido pobre e bonzinho pra oprimi-lo.

E quando a mulher assume cargos de destaque, às vezes ela realmente merece admiração, por qualidades não só profissionais como pessoais. Mas muitas mulheres de destaque são autoritárias e histéricas, isso quando não conseguiram subir na carreira na base do sexo. Se uma mulher de destaque tem a fama de masculinizada ou feminazista, não é a toa. A mulher que constrói um sucesso canalizando a frustração com a própria aparência, a vida afetiva mal-resolvida ou uma grande vaidade para o trabalho e os estudos existe. E essa mulher, apesar de suas conquistas pessoais, mostra sua falta de humildade, sua dificuldade de relacionamento pessoal ou suas feridas interiores, tanto no relacionamento pessoal quanto profissional. Essa mulher, que pode ser um ídolo para feministas, é um anti-modelo como pessoa e profissional.

Temos de ver que as mulheres nem sempre valorizam a liberdade e os direitos que têm, e muitas vezes são tão machistas quanto os homens machistas. Parece até combinado. As mulheres podem ter alguns direitos, mas que continuem na linha e não busquem o direito até de serem mulheres. Assim, com essa mentalidade antiga ainda na cabeça, feminismo vira pensão, aborto, lesbianismo, lei contra homem e disputa com os homens por destaque. Use burka, minissaia, tailleur ou topless, a mulher continua reprimida sexualmente.

Mas eu concordo plenamente com quem diz que uma mulher não deve ser vista como puta só porque usa uma roupa menos comportada. Eu uso vestido comprido desde os 14 anos (tenho 18) e já tenho mais picas no currículo que qualquer mocinha de minissaia vai ter na vida. Hehehehe!

NOTAS:

1 "Dia Internacional da Mulher relembra problemática da violência", Jornal Hoje, 08 de março de 2008. Disponível em http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL342652-5602,00-DIA+INTERNACIONAL+DA+MULHER+RELEMBRA+PROBLEMATICA+DA+VIOLENCIA.html.

2 Um caso está relatado na revista Sou Mais Eu, na internet em http://mdemulher.abril.com.br/beleza-dieta/reportagem/dieta/emagreci-42-kg-dieta-sanduiche-light-396547.shtml?comments=yes.

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