quarta-feira, 30 de abril de 2014

Valorização da Educação? Vamos começar pelo povo!

Primeiro, quem fala em valorização da Educação no Brasil costuma ser professor medíocre, sindicalista e graduando maconheiro de curso de Ciências Humanas, e sempre para conseguir dinheiro público, geralmente aumento de salário para os professores. Os professores bons, quando reclamam do salário, falam uma vez ou outra, porque o que mais incomoda pode ser os próprios colegas medíocres, ou funcionários incompetentes, ou a turma que não estuda. Os alunos que levam o curso a sério estão mais preocupados com os colegas que atrapalham a aula, os funcionários incompetentes e sem educação, a sala de computadores onde o administrador se preocupa mais com bloquear websites do que com as máquinas estragadas. Mas isso não significa que o discurso da turma da valorização da Educação esteja (quase todo) errado.

Primeiro, não é porque um povo é de baixa escolaridade, ou até a maioria de analfabetos, que ele vai desprezar a Ciência. Outros países da própria América Latina já tiveram um povo de baixa escolaridade que tratava quem tinha instrução com respeito. Hoje está mais claro que o desprezo pelo conhecimento, pela inteligência ou até deboche de quem fala corretamente é coisa da cultura do Brasil, porque até os graduandos em geral (e em níveis mais avançados) têm horror ao conhecimento e ao bom argumento.

Até quando um brasileiro parece valorizar os estudos não é pelo saber em si, é por status e dinheiro. É o diploma, não o que ele devia significar, que é o tesouro, o provedor do carro de luxo, o atrator de vadias, a fonte de dinheiro para o sustento e o hospital da mãe de corpo decadente. E para conseguir o diploma, não ter a formação que ele devia significar, vale pagar trabalho, copiar trabalho pronto da internet, trepar com o professor, tirar o professor que não dá nota fácil, até pagar pelo próprio diploma ou comprar a tese de pós-graduação ou o trabalho de conclusão de curso. Os próprios universitários falando de cursos geralmente falam de renda e possibilidades de trabalho depois de formados. Nós não costumamos ver rodas de conversa em corredores, restaurantes ou barzinhos do campus de estudantes de Medicina falando de Medicina ou estudantes de Filosofia discutindo filósofos. Se você já pegou um ônibus que passou por uma faculdade em fim de aula, já deve ter visto: ninfetinhas ou lésbicas burguesas e moleques burgueses afeminados falando de colegas, ridicularizando ou reclamando de professores, falando da família, comentando filmes, comentando festinhas, contando casos imbecis, tudo entre risadas de macaco. No máximo (quase sempre), reclamando de que a matéria tal é difícil ou dizendo como passar com tal professor é fácil.

Os universitários, principalmente as mocinhas, falam da universidade, de curso, de pós-graduação no exterior como quem fala de uma boate ou de um local turístico. O típico universitário brasileiro não é o de um jovem dedicado a estudar, quase antissocial, para saber pelo menos o básico de uma Ciência da Computação ou de uma Agronomia. É um moleque bancado pelo pai classe média mais preocupado em pegar vadias e encher a cara de drogas e álcool do que em terminar o semestre sabendo mais do que quando começou. Ou uma vadia também bancada pelo pai classe média e frequentadora de calouradas, embora menos pior que o rapaz acima. E a universidade brasileira nem é vista pelo público de fora como uma espécie de Maçonaria da Ciência, a referência é festa com bebedeira, maconha, "agitprop" (agitação mais propaganda socialista), velhos sexualmente doentes que publicam artigos que ninguém vai ler e jovens mal acostumados.

Mas, gente, saindo um pouco do assunto, por favor não pensem, quem for de fora, que a faculdade é um antro de putaria. Os playboys dão festas onde algumas mocinhas que se fazem de santas ou seletivas no dia-a-dia se soltam, é verdade, mas nas faculdades são mais moças puritanas do que lésbicas assumidas e vadias juntas (lembrando que vadia não é a mulher que fode muito, é a que valoriza os piores homens). Uma vez eu estava saindo da aula de manhã, eu ainda estava com 16 anos e no Ensino Médio, no campus de uma universidade federal, em uma lanchonete, com alguns amigos. Aí a gente estava conversando alguma coisa relacionada a Feminismo, uma mocinha feminista entrou na conversa e eu fiquei no meio do povo que estava em umas mesas ao ar livre pra fazer uma brincadeira: "gente, vou dar uma festinha de aniversário sem álcool mas com refrigerante, comida e putaria liberados, quem quer?". Uns três rapazes conhecidos disseram "eu quero". Aí eu disse: "cadê as meninas?". Aí a mocinha feminista me tacou uma lata de refrigerante (não acertou, mas até senti o gelado na minha orelha) e as mulheres todas aplaudiram.

Na Macacolândia, metade dos universitários são analfabetos funcionais (sabem juntar as letras mas não sabem interpretar corretamente um texto ou uma tabela) e os alunos que terminam o segundo grau estão entre os últimos colocados do PISA e nenhum político deixa de ser reeleito, nenhum funcionário público da Educação perde o cargo. A educação brasileira é vergonha até na América Latina e ninguém com responsabilidade direta vai preso. Sabe quem perde o emprego? O professor que quer dar aula de verdade.

A ideia geral que o Brasil tem da Ciência pode ser resumida naquela "piada": a faculdade quer dar o diploma, o aluno quer receber e o professor está lá para atrapalhar a negociação.

No entretenimento popular, quase todos os personagens do humorismo são imbecis. O McGyver foi um exemplo raro de sucesso de seriado com protagonista homem inteligente e instruído. Quando o personagem homem é erudito ou apenas inteligente, é um professor que mal consegue dar aula e só ouve a turma falando asneiras como o Professor Girafales ou o Professor Raimundo, ou um desastrado pega-ninguém como o personagem do Eddie Murphy em "O Professor Aloprado". Quando um homem de estudos aparece nos contos de moral, é pra ser humilhado por índio, caipira ou velho asiático. As mulheres espetaculares dos seriados de televisão ou do cinema eu não menciono porque são peças moralistas ou ítens de consumo feminista para lésbicas que ganham pouco.

Aí falam em plano das elites para deixar o povo burro e babaca. No caso do Brasil, a conspiração deve ter passado pelo sistema de cotas para alunos de escolas públicas nas universidades, pelo voto facultativo para analfabetos, pelo acesso dos pobres à televisão e pelo Orkut.

Abigail Pereira Aranha

Apêndices

Diploma vendido no centro de BH

No fim de janeiro, O TEMPO denunciou um esquema de venda de diplomas de ensino médio que funcionava a poucos metros de uma delegacia, em plena avenida Santos Dumont, no centro da capital. Facilmente, o repórter conseguiu comprar o certificado fraudado por R$ 200.

Na tarde do dia 19 de janeiro, a reportagem forjou interesse no documento irregular e fez a encomenda por telefone com um homem que se apresentou como Marcelo. "É um documento que vai resolver seus problemas", garantiu.

Passados seis dias, o estelionatário pediu a outro homem, identificado como Augusto, que entregasse o diploma ao "cliente". Numa pasta preta, o homem de cabelos grisalhos exibia vários envelopes idênticos ao documento fraudado.

Nas imagens registradas pela reportagem, o estelionatário apresentou o certificado que foi verificado pelo repórter. Enquanto isso, o suspeito sorriu, conversou e chegou a dar um gole num copo de cerveja. Ele disse que era aposentado e vendia diplomas falsos há seis anos sem nunca enfrentar problemas. "É garantido. Já vendi até para gente que entrou na PM e na BHTrans", disse.

Em seguida, o repórter entregou a quantia combinada ao estelionatário, que conferiu sem a menor discrição. O comprovante do ensino médio vendido pelos falsificadores possui carimbo da Secretaria de Estado da Educação (SEE) e da Escola Sesi Alvimar Carneiro de Resende, no bairro Cinco, em Contagem, na região metropolitana. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), entidade responsável pela escola, informou que irá implantar diplomas com marca d?água para evitar falsificações.

A reportagem enviou o diploma falso à SEE, que informou, por meio de nota, que "vários elementos apontavam para irregularidades". (RRo)

"Conselho faz varredura em 140 mil registros profissionais" (Rafael Rocha). O Tempo, Belo Horizonte, 06 de fevereiro de 2010, http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=162799,OTE.

Venda de trabalho escolar sai por R$ 1.500 em Minas

Prática ilegal se espalhou no Estado, dizem professores; venda é parcelada em até 18 vezes

Carolina Coutinho, do Jornal Hoje em Dia, com R7

http://i2.r7.com/zemoleza-450x338.jpg

Site Zé Moleza, que permite baixar monografias, trabalhos de faculdade e de colégio

Monografias de faculdade vendidas em até 18 vezes no cartão de crédito. Seja por falta de tempo, interesse, capacidade ou por pura malandragem, cada dia mais estudantes recorrem à compra de trabalhos para concluir o curso universitário. Educadores afirmam que esse tipo de fraude se tornou comum em salas de aula das instituições de ensino superior de Minas Gerais.

Essa tática é posta em prática por aqueles alunos que precisam do diploma, mas que não querem ou não podem se esforçar para conquistá-lo. A principal fonte dos trabalhos prontos é a internet, onde há milhares de sites que oferecem o produto, como o conhecido Zé Moleza.

Com o pretexto de comprar uma monografia do curso de psicologia, a reportagem entrou em contato por telefone com vendedores de trabalhos de conclusão de graduação em Belo Horizonte. As ofertas foram facilmente localizadas pelo sistema de buscas do Google - havia telefone, preços e informações disponíveis da "empresa" na internet.

O preço cobrado é R$ 1.500, que pode ser parcelado em até três vezes sem juros, com cheques pré-datados. Caso o cliente queira pagar à vista, a "empresária" dá um desconto. Apesar de ser claro o tipo de atividade, a vendedora afirma que não faz o trabalho sozinha.

A "empresária", ao atender o telefone, informou que faz trabalhos de qualquer tema e que seus clientes nunca tiveram problemas com os professores. Ela disse ser formada em arquitetura e trabalhar há mais de 20 anos na confecção de monografias.

- O estudante tem que antes me repassar todas as orientações de seu professor, para eu ter noção do que ele quer.

A segunda vendedora com que a reportagem entrou em contato tem prática diferente. Ela disse que estabelece preços de acordo com o cliente e com o produto.

- Oriento todos os meus clientes a escolherem temas comuns, para facilitar a obtenção de fontes de consulta e agilizar a pesquisa. O valor é negociável, depende do tema e do tamanho.

Crime

Mesmo configurando crime (falsidade ideológica e violação de direito autoral), as fraudes e plágios em trabalhos acadêmicos quase nunca viram processos judiciais. A maioria das instituições de ensino prefere resolver o problema internamente, com advertência, reprovação e até mesmo a expulsão do aluno infrator.

O advogado e professor de direito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Manoel Galdino da Paixão Júnior disse que esses crimes só não vão parar na esfera judicial porque não interessa à faculdade divulgar esse tipo de conduta.

- Ter alunos imorais e criminosos matriculados em sua instituição denigre a imagem da faculdade. É por isso que elas não denunciam os fraudadores.

Para a vice-reitora da PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), Patrícia Bernardes, cabe à universidade aplicar as punições.

- Damos zero no trabalho, reprovamos o infrator e até o expulsamos da instituição, dependendo da gravidade da fraude. Nossas sanções são acadêmicas. Infelizmente, as falsificações têm se tornado frequentes. Eles [alunos que fraudam trabalhos] só querem saber do diploma.

A linha de atuação é a mesma na UFMG, segundo o pró-reitor-adjunto de graduação, André Cabral.

- Em caso de fraude, a banca examinadora pode reprovar o estudante. E se for plágio a gente pode abrir sindicância. Se o plágio for confirmado, é aberto um processo administrativo disciplinar. É dado amplo direito de defesa ao aluno, mas ele fica sem poder colar grau durante o processo.

O problema não é específico de Minas e não se restringe às vendas pela web. Em outras cidades, como Brasília (DF), faixas com anúncio do serviço podem ser vistas nas ruas. A reportagem verificou placas com dizeres como "Auxílio monográfico", "Monografia - verificamos plágio" e "Monografia - consultoria". Todas traziam telefones de contato.

Orientação

O MEC (Ministério da Educação) afirma que as universidades devem procurar a polícia para resolver o caso. A autonomia das instituições não permite à pasta intervir nesses casos, diz a pasta em nota oficial.

- As universidades são autônomas e o MEC não pode intervir. Isso é caso de polícia, e as universidades devem decidir qual o melhor procedimento aplicar.

O Ministério Público de Minas Gerais disse, via assessoria de imprensa, que as denúncias contra os sites que vendem as monografias não são da esfera pública, mas sim do direito privado. Desta forma, esses sites continuam online.

Advogado especialista em direito autoral, Hildebrando Pontes ressalta que os casos não viram processos judiciais porque as faculdades tendem a contemporizar a situação.

- Acho que as universidades deveriam caçar o título do fraudador, porque isso é crime. Mas elas não podem ser obrigadas a denunciar seus alunos à Justiça. Só recorre à Justiça, mesmo, aquele autor que foi plagiado. E isso quando ele fica sabendo que sofreu o crime.

R7, 03 de fevereiro de 2011, http://noticias.r7.com/vestibular-e-concursos/noticias/venda-de-trabalho-escolar-sai-por-r-1-500-em-minas-20110203.html

domingo, 27 de abril de 2014

Mulheres vítimas de violência doméstica: elas que aprendam a escolher os homens

Estive a pensar numa coisa e realmente começo a ficar farto dessas mulheres que são vítimas de violência domestica, inda ontem ao jantar falaram nisso, agora eu pergunto: o que muitas dessas mulheres fazem ou fizeram pra evitar isso? Pouco ou nada. Em vez de irem pro ginásio praticar artes marciais e/ou puxar ferro, sobretudo antes de se meterem numa relação, preferem ir pras discotecas pros copos, sobretudo quando há ladies nights, então depois não se podem se queixar de que apanham, né? Mas isto que eu estou a dizer até nem é nada de novo. Há muitas mulheres que se queixam de que apanham, mas quantas é que já tentaram arranjar um gajo decente? A meu ver o que não falta por ai é gajos decentes, conheço amigos meus que até são gajos como deve de ser, muitas não arranjam um gajo decente porque não querem, porque pura e simplesmente se estão nas tintas [não se importam], então depois também não se podem queixar de que apanham, por isso essas mulheres que deixem mas é de ser estupidas, não me venham com lamúrias e arranjem um gajo como deve ser, porque o que não falta por aí é gajos decentes. Gajos como eu pura e simplesmente não passam de falhados, viciados em videogame, virjões, pega-ninguém, como já referi anteriormente e até podemos fazer de tudo por uma pessoa, até mesmo pra evitar que essa pessoa se ferre, mesmo que isso nos possa pôr em risco, nunca chegamos a ter mais do que a amizade dessa pessoa e depois inda por cima o que que essa pessoa faz? Simplesmente caga pra nós, como se não fossemos nada. Enquanto há gajos que fazem a merda que querem, fazem trinta por malinha têm e terão sempre direito ao amor incondicional dessa pessoa. Acho que a memória da minha prima está mais que honrada, por isso eu praticamente arrumei a trouxa e deixei de ser trouxa, sobretudo quando sei de casos como um que me contaram uma vez em que um casal tava à porrada e chamaram a policia, depois quando a policia chegou e o casal disse que tava tudo bem. Quando é assim da próxima vez que um gajo assistir a uma cena de violência domestica mais vale um gajo ir buscar uma geladinha ou pipocas e sentar-se na rua a assistir ao espetáculo e apenas se deve chamar a policia se um gajo tiver a tentar dormir e o casal tiver a fazer muito barulho. Basicamente é isso.

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=524801&page=-1

Um artigo sobre o homicídio da minha prima que deixou duas filhas, uma dela chama-se Beatriz, a outra chama-se Catarina. O que mais custa no meio disto tudo é que se calhar há muitas mulheres que zombam comigo, mas são poucas aquelas que entendem a minha dor e a minha mágoa. O que mais me custa também é ter tido um caso destes na minha família, fazer de tudo pra evitar que UMA MULHER não se dê mal com um vigarista e um gajo potencialmente perigoso e mesmo assim ela ir em frente como se nada fosse. É isso que dói acima de tudo. Por isso, pra mim acabou, elas que abram mas é a pestana, porque o que não falta por aí é gajos decentes, embora tenham algumas arestas por limar, mas quem não tem? Afinal, ninguém é perfeito. Seja como for, acho que devia haver o dia do homem que presta, apesar de já existir o dia internacional do homem, embora não tenha tanto impacto como o dia internacional da mulher.

Resumindo e concluindo: elas que aprendam as escolhê-los.

(Do amigo Duarte Joaquim, notas de 21 e 22/3/2014, por mensagem)

Comentários de A Vez das Mulheres de Verdade / A Vez dos Homens que Prestam

Há poucas horas, eu estava no perfil de outro amigo e vi uma real sobre friendzone. Aí eu fui no endereço da figura e esbarrei em um comentário. Aqui vai:

(https://www.facebook.com/9gag/photos/a.109041001839.105995.21785951839/10152203659281840/?type=1&relevant_count=1)

- Eu quero um namorado atencioso, belo e doce.

Você o mandou para a zona da amizade, VADIA.

(- I want a sweet nice caring boyfriend.

You friendzoned him, BITCH.)

Alexandra Villanueva Quantos rapazes da "zona da amizade" são necessários para trocar uma lâmpada? Nenhum. Eles vão só galanteá-la e ficar chateados porque ela não se encaixou.

(Alexandra Villanueva How many 'friend zoned' guys does it take to change a light bulb? None. They'll just compliment it and get pissed when it won't screw.)

Em Portugal, nos Estados Unidos e no Brasil, você tenta ser um homem amável e ainda tem que ler isso. Fora quando casos de assassinatos de homens por mulheres são ignorados ou comentados aos risos nas redes sociais, ou quando suicídios de homens separados dos filhos pela Justiça e pela mãe não são comentados.

Abigail Pereira Aranha

terça-feira, 22 de abril de 2014

Marido descobre que a esposa fez filmes pornôs

A influência do passado sexual

(Marxismo Cultural, 16 de Março de 2013, http://omarxismocultural.blogspot.com.br/2013/03/a-influencia-do-passado-sexual.html)

Mais um homem que pede "conselhos" para algo que deveria ser relativamente fácil de decidir. Com comentários do blogue "Alpha Game Plan"

QUERIDA ABBY: A minha mulher é eu estamos casados há 5 anos. Descobri recentemente que, quando ela tinha 19 anos, ela fez entre 10 a 20 filmes pornográficos. Nós casamo-nos quando ela tinha 27 anos, e temos 4 filhos de dois casamentos anteriores.

Estou devastado.

Quando a confrontei com isto, ela chorou de uma forma que eu nunca a tinha visto chorar, e disse que este foi o maior erro da sua vida. Entendo que seja difícil dizer a alguém sobre isto. Eu mesmo também não levei uma vida perfeita, e também tenho os meus esqueletos no armário (dos quais nunca faria menção).

No entanto, não consigo superar esta situação. Nunca senti uma dor como a que sinto agora e não sei o que fazer. Amo a minha esposa e não quero o divórcio, mas isto [o facto dela ter feito 10-20 filmes pornográficos] assombra-me todas as noites.

Temos uma excelente vida e eu tenho total confiança nela. O que é que tenho que fazer para superar esta situação?

Assinado: DEVASTADO NOS ESTADOS UNIDOS.

A resposta da "conselheira" não foge muito ao que seria de esperar (como já visto aqui):

CARO DEVASTADO: Um passo gigante na direcção certa seria aceitar que ambos tinham um passado antes de se casarem, e que ambos fizeram coisas das quais não estão orgulhosos.

Todas as pessoas têm um passado mas nem todos os passados têm o mesmo peso matrimonial. Certamente que a esposa sabia antecipadamente que os homens não se querem casar com "actrizes" pornográficas, mas mesmo assim, ela escolheu esconder esta informação. O próprio facto dela o ter escondido demonstra que ela sabia que este passado seria muito relevante se o marido (ou futuro marido, na altura), tivesse conhecimento antes de casar.

A colunista continua:

Depois disto, faça uma lista de todas as coisas boas que vocês têm juntos, e perdoe a sua esposa por ter feito erros dolorosos no passado, dos quais ela se encontrava demasiado envergonhada para revelar.

Note-se como o foco passou do que o homem sente, para o que a mulher sente. O propósito da colunista não é ajudar o casamento, nem ajudar o homem que entrou em contacto com ela, mas remover da mulher o estigma dum passado que, a ser sabido antes do matrimónio, seria suficiente para que o casamento não se verificasse.

Certamente que isto [fazer uma lista das "coisas boas" que eles têm juntos] é melhor do que divorciar a mulher por uma coisa que ela não pode mudar.

A implicação disto é que se ela - a esposa - pudesse mudar o passado, então já seria moralmente aceitável pedir o divórcio; como ela não pode mudar o passado, então o melhor é o homem suprimir a sua natural aversão pela mulher promíscua, e manter-se casado com ela. Ou seja, o que ele sente é irrelevante: o que interessa é o que ela sente.

Se isto não funcionar, então será aconselhável procurar aconselhamento matrimonial.

Este "aconselhamento matrimonial" terá como propósito único condicionar o homem de modo a que ele altere a sua psicologia e se sinta "bem" em ter como esposa uma mulher que, a troco de dinheiro, disponibilizou o seu corpo para a degradação sexual com vários homens potencialmente contaminados com DSTs.

Mas este será um esforço condenado ao fracasso porque a rejeição que o homem tem pela mulher promíscua está embutida na sua psicologia masculina; ela não pode ser alterada através da lei nem através da pressão social ("shamming").

* * * * * * *

Até pode ser que estejamos errados, mas acho que a maior parte das mulheres entende que ter um passado como "actriz" pornográfica não pode ser considerado um acréscimo matrimonial.

A reacção da esposa pode ser indício de que ela foi realmente apanhada de surpresa (ou então não foi suficientemente rápida em voltar a situação ao contrário e acusar o marido de infidelidade por assistir filmes pornográficos). Mas levemos em conta que nós estamos provavelmente a falar dum N ([N = números de parceiros sexuais] que varia dos 10 aos 50 (e isto falando só dos parceiros sexuais que ela teve nos filmes, fora os que ela teve na vida pessoal). Vamos assumir que o N é 30.

Se as mulheres são capazes de entender o quão desagradável é para o homem casar com uma mulher que teve 30 parceiros sexuais durante a sua "carreira cinematográfica", porque é que é tão difícil para algumas entender que fornecer os mesmos serviços sexuais gratuitamente não é mais aceitável para os homens, (quer existam ou não câmaras em redor)?

Devido a isto, a ideia de que o passado pornográfico é intrinsecamente pior que um outro passado não-pornográfico, mas com o mesmo número de parceiros sexuais, é dúbio. Afinal, o que é pior: 1) uma mulher que afirma que fez o que pelo dinheiro, ou 2) outra que afirma tê-lo feito de graça? E qual das duas mulheres é mais susceptível de trair o marido: a mulher que fez o que fez pelo dinheiro, ou aquela que fez o que fez apenas e só porque teve vontade de o fazer?

É perfeitamente lógico o homem rejeitar a mulher promíscua - quando se fala em casamento - porque a vida sexual passada é uma forma válida do homem projectar que tipo de esposa ela vai ser.

Conclusão:

Hoje em dia as mulheres pedem o divórcio pelos motivos mais frívolos, mas os homens aparentemente não tem apoio social na sua decisão de se divorciar duma mulher que 1) fez filmes pornográficos e 2) escondeu que fez filmes pornográficos.

Ver também: Colunista feminista chocada por descobrir que os homens não se querem casar com mulheres promiscuas

Comentários de A Vez das Mulheres de Verdade / A Vez dos Homens que Prestam

Primeiro, a parte da discordância. Com a parte da moral cristã, o amigo Lucas erra na parte do "vários homens potencialmente contaminados com DSTs" (já ouviram falar da Adult Industry Medical Healthcare Foundation?) e na parte do adultério. Quando uma vadia procura casamento, é porque está em fim de carreira e querendo abafar o passado, e a proporção de adultério entre mulheres que se casaram virgens ou tiveram dois ou três homens na vida antigamente não devia ser muito diferente de entre as "liberais" de hoje depois de casadas. E eu também sempre achei que homem que faz questão de mulher virgem é inseguro. Fora que eu não consigo entender um homem ter tanto horror em uma mulher ser prostituta, modelo erótica ou atriz pornô, eu até fiz uma estorinha sobre isso. Lembrando que eu não sou prostituta nem fiz filme pornô, eu me especializei na área mas não exerço como profissão, hehehehe.

Mas até em um caso desses, o que eu tenho em comum com essa turma de cristãos tradicionais capitalistas defensores da castidade é mais do que o que eu tenho de discórdia. Esse caso é o típico do que os meninos da Real (masculinistas brasileiros) contam: a moça tinha 27 anos quando se casou, já tinha filhos, escondeu o passado enquanto pôde, e certamente o rapaz foi o que a Real chama de "capitão salva-putas". Se ele ficou espantado, é porque a esposa além de esconder o passado, agia de uma forma que não deixava ele imaginar nada perto disso. Toda vadia é moralista depois de velha. Lembrando que eu não sou vadia, porque vadia é mulher "liberal" com mau gosto. E podem apostar, a família dela também não sabia de nada. Mesmo assim, eles não são tão inocentes: pai de "ex-vadia" quer genro "respeitador". Nenhum rapaz começa a namorar uma garota e o pai, a mãe ou os irmãos dizem que ela perdeu a virgindade aos 14 anos com o pior marginal do bairro, teve filho com homem casado ou roubou namorado de outra. E se ela namorou com um cafajeste ciumento atrás do outro dos 14 aos 25 anos, é o rapaz bom, trabalhador e bem de vida que leva na cara tudo que a família e a queridinha queriam ter dito e feito com os anteriores.

E depois da safadeza toda (de mau caráter, não de sexo), casamento aberto, nem falar, né? Nem apresentar as amigas, nem deixar chegar perto da irmã bonita. Podem apostar que foi o caso aqui também.

Ser casado com uma mulher companheira, simpática e safada que assume o que é e o que foi é legal pra caramba. Uma vida sexual gostosa, ele tem as amigas dela, ela tem os amigos dele, as amigas dela abrem as pernas pra ele e ela não acha ruim, ela transa com os amigos dele e ele vai vendo que não é o fim do mundo, os dois conhecem gente nova, eles conversam com os amigos com coisas sérias e engraçadas, ela fazendo piada que deixa os outros casais e as mães separadas com crianças sem graça, o povo falando mal dela, ela falando pior do povo que fala mal dela. Eu sei disso porque eu tenho amigos homens e alguns já comentaram sobre como seria se um homem tivesse coragem de se casar comigo, hehehehe. O problema no caso mostrado não foi o passado, foi a dissimulação. Viva a putaria! Abaixo a falsidade!

Abigail Pereira Aranha

sábado, 19 de abril de 2014

Sou vadia, feminista, abortista e até invado igreja de peito de fora, mas não ando com puta (bom, nem sempre)

Embora parte do movimento feminista seja refratária à aproximação com profissionais do sexo, prevaleceu entre nós a opinião de que não há motivo para segregar, muito pelo contrário: a troca de experiências e a oficina de cartazes na APROSMIG (Associação de Prostitutas de Minas Gerais) foram bastante enriquecedoras para todos nós feministas. Toda a fragmentação e complexidade da experiência que é participar de uma Marcha das Vadias é para isso mesmo: para mostrar que os feminismos são muitas caras.

O topless que tem sido apontado pela mídia como um ponto em comum entre Femen e Marcha das Vadias funciona de forma completamente diferente: na Marcha das Vadias o topless não é obrigatório. Obviamente a cobertura midiática deixa em segundo plano as mensagens políticas e a discussão sobre liberdade das mulheres desde que elas sejam feminazistas, para mostrar o clima de descontração, o ambiente propício para as participantes que desejarem poderem se despir. Nos feminismos, temos meninas heterossexuais, temos meninas que além de defenderem o lesbianismo também dizem que sexo heterossexual é estupro; temos meninas que querem que a prostituição e a pornografia sejam crimes, temos meninas que... respeitam. Os feminismos são diferentes, mas não existem os machismos: quem nos critica são misóginos e apoiadores do estupŕo, sejam homens ou mulheres.

Diversas crianças participaram da Marcha das Vadias deste ano e foi lindo vê-las se divertindo. E aí fica a questão: uma criança de 3 anos como a Teresa entende a Marcha das Vadias? Sim, quando ela segurou um cartaz dizendo "meu corpinho, minhas regrinhas, desde já e sempre" vestida de pirata o significado era simples: aquela criança tem liberdade para escolher, para fantasiar, sem amarras tão pesadas como as impostas às meninas nos dias de hoje. Claro que ela não pode ser sujeita a ver mulher de peito de fora na televisão ou na internet, apologia à heteronormatividade ou um blogue sobre direitos dos homens, e só daqui a 15 anos ela pode saber o que é prostituição. Porém, depois, com as fotos publicadas vieram muitas críticas à participação de crianças. Embora algumas de nós discordem quanto à prostituição, nenhuma feminista fez críticas de tom moralista ("é uma pouca vergonha", "crianças não deveriam ver mulheres de peito de fora", e por aí segue o festival de conservadorismo).

Participar da Marcha das Vadias é uma experiência libertária! Exigimos fazer nossas escolhas sem pagar por elas e o direito de julgar desde leis até piadas com ou sem graça sem sermos julgadas.

E por falar nas prostitutas, o Ministério da Saúde se lembrou do Dia Internacional da Prostituta no ano passado e até o diretor da campanha foi demitido. Estamos devendo uma pras meninas.

Abigail Pereira Aranha

Apêndice

Marcha das Vadias de Belo Horizonte: feminismos, construção coletiva e troca de experiências

http://blogueirasfeministas.com/2012/08/marcha-das-vadias-bh

Posted on 21/08/2012 by

Como nos últimos dias tem havido uma comparação entre Femen e Marcha das Vadias, acho importante ressaltar aqui as diferenças, mostrando como a Marcha das Vadias é descentralizada, não-hierarquizada, aberta à diversidade, marcada pela construção coletiva e troca de experiências. Para isso, vou contar um pouco sobre a Marcha das Vadias em Belo Horizonte, que ocorreu no final de maio deste ano. Estamos longe de um esquema verticalizado, com lideranças. A Marcha é o resultado de um processo de discussão que agrega inúmeros movimentos sociais, e não um evento fechado em si mesmo.

Chamadas para a 2ª Marcha das Vadias – BH. Clique para ver o álbum completo

E o topless – que tem sido apontado pela mídia como um ponto em comum entre Femen e Marcha das Vadias – funciona de forma completamente diferente: na Marcha das Vadias o topless não é obrigatório. Exatamente por ser uma manifestação pela liberdade, não há porque obrigar alguém a se vestir/desvestir de determinada forma. Seja por fazer parte da performance em si, ou seja pelo clima de descontração, há o ambiente propício para as participantes que desejarem poderem se despir. E até por questionarmos a falta de diversidade dos corpos femininos na mídia há espaço para que se percebam que todos os corpos são lindos.

Obviamente a cobertura midiática foca no topless (porque rende cliques, caracterizando o jornalismo punheteiro), deixando em segundo plano as mensagens políticas e a discussão sobre direitos e liberdade das mulheres. Há o risco de as pessoas interpretarem mal a Marcha, mas é uma boa forma de entrarem em contato com o feminismo. Levando em consideração o aumento de participantes da Marcha entre o ano passado e este ano, e a ampliação das manifestações em favor da liberdade e da desconstrução de relações e papeis de gênero, nota-se que esse sistema, por mais que seja deturpado pela mídia, tem funcionado como espaço de aproximação e introdução aos feminismos.

Tivemos o empenho de três facilitadoras que foram fundamentais pra gerenciar todo o processo: Debora Vieira, Renata Lima e Adriana Torres. Porém não houve preocupação em centralizar entrevistas e contatos para a mídia em apenas uma pessoa, nem nomear lideranças ou porta-vozes. Todas participaram, cada pessoa de acordo com sua disponibilidade e possibilidade. Quem estava disponível, participava. Quem podia contribuir com textos, dinheiro, trabalho, sugestões, contatos, fotos, mobilização na internet, encaminhamentos burocráticos, fazia cada uma dessas coisas. E contribuições sempre foram bem-vindas.

Diversas crianças participaram da Marcha das Vadias deste ano e foi lindo vê-las se divertindo. Porém, depois, com as fotos publicadas vieram muitas críticas à participação de crianças. A maioria das críticas surpreendeu pelo tom moralista (“é uma pouca vergonha”, “crianças não deveriam ver mulheres de peito de fora”, e por aí segue o festival de conservadorismo). E aí fica a questão: as crianças entendem a Marcha das Vadias?

“Sim, uma compreensão típica de uma criança de três anos, mas existe entendimento e mais importante ainda, existe empatia, sentimento de pertencimento. Quando ela segurou um cartaz dizendo ‘meu corpinho, minhas regrinhas, desde já e sempre’ vestida de pirata o significado era simples: aquela criança tem liberdade para escolher, para fantasiar, sem amarras tão pesadas como as impostas às meninas nos dias de hoje. Ou seja, ela vivencia essa regra. A presença de outras crianças na marcha, inclusive, ressalta isso: está surgindo uma nova geração que vem diariamente, sistematicamente, sendo educada para pensar fora de um padrão que é opressor tanto para mulheres como para homens.” Ludmila Pizarro, mãe da Teresa (3 anos)

Este vídeo é um resuminho da Marcha, mostrando a subida da Rua da Bahia rumo à Praça da Liberdade:

Por isso marchamos, ganhamos as ruas de Belo Horizonte com sorrisos nos rostos, corpos rabiscados, fantasias, cartazes, batuques e gritos que traduzem o espírito da manifestação e esperamos despertar questionamentos acerca de todas as formas de preconceito e opressão. Sabemos que o termo vadia, uma ironia, e o formato da Marcha nem sempre serão entendidos e muitas vezes serão criticados. O objetivo aqui é justamente repensar valores e comportamentos, resignificar o que é ser vadia e o que é ser mulher no mundo atual. Não podemos simplesmente repetir velhos padrões que nos são ensinados de forma enlatada com o objetivo de nos tirarem a liberdade e de nos manterem em “nosso devido lugar” e não no lugar em que nós queremos e escolhemos ocupar.[Mira Ribeiro]

Cida Vieira na 2ª Marcha das Vadias de BH – créditos da foto: Túlio Vianna

Fizemos questão de abrir espaço para outros grupos, para outras manifestações, já que nossa proposta é unir, e nunca segregar. Foi assim que vários grupos se manifestaram e criaram chamadas próprias para a Marcha das Vadias. E foi assim que nos aproximamos da Aprosmig (Associação de Prostitutas de Minas Gerais).

Foi na Aprosmig que entendemos o quanto a expressão “nem santa nem puta”, bastante utilizada em manifestações feministas, soa ofensiva para as prostitutas. E foi no espaço da Aprosmig (gentilmente cedido pela Cida Vieira, diretora da Associação das Prostitutas) que realizamos a oficina de cartazes para a Marcha. Embora parte do movimento feminista seja refratária à aproximação com profissionais do sexo, prevaleceu entre nós a opinião de que não há motivo para segregar, muito pelo contrário: a troca de experiências e a oficina foram bastante enriquecedoras para tod@s nós.

Participar da Marcha das Vadias é uma experiência libertária! É uma luta histórica, um momento de dizer não, ainda não há igualdade de gênero e exigimos o fim da violência, a liberdade e o respeito a todas as mulheres. Que possamos fazer nossas escolhas sem sermos julgadas, que a sociedade e religiões não nos limitem, não tentem controlar nossos corpos nem nos digam como devemos nos comportar para sermos aceitas em um modelo patriarcal construído com base em interesses econômicos e sociais de séculos passados.[Paula Coradi]

Os comentários não traduzem toda a fragmentação e complexidade da experiência que é participar de uma Marcha das Vadias (por favor, contribuam contando suas experiências nos comentários). Porém, transmitem parte dos princípios que estão sendo abraçados pela Marcha: mobilização não-hierarquizada, liberdade das mulheres, liberdade para as mulheres, fim das opressões de gênero. E a participação maciça de pessoas jovens mostrou que há interesse em continuar a luta e há muito ainda pelo que lutar para que as fronteiras de gênero sejam diluídas e que o preconceito, em todas as suas formas, diminua. Espero que as discussões que estão sendo gestadas agora contribuam para que as próximas Marchas sejam mais problematizadoras e inclusivas, especialmente em relação ao transfeminismo.

Clique para ver o álbum completo: Beijos de batom

O álbum de fotos que se tornou o meu favorito é o dos beijos de batom [abram o link e vejam o álbum completo, que é lindo!] A mensagem que veio com ele causa arrepios, e eu acho que pode ser ampliada: somos pessoas, queremos liberdade e não queremos preconceito.

E nós, feministas, mandamos um beijo de batom, pr’essa gente sem cor, sem amor, sem respeito. Pr’esse mundo violento, machista e egoísta..

Queremos que nosso gesto alcance o mais alto dos topos, o mais duro dos corações, o mais frio dos sentimentos.

É só um gesto de carinho pedindo respeito.

Somos mulheres e não queremos preconceito!

Marcha das Vadias – BH – 26/05/2012

De Laís Rodrigues e Luana Costa para o mundo.

Este post foi editado por Cynthia Semíramis, com contribuições de Ludmila Pizarro, Paula Coradi e Mira Ribeiro.

As fotos do destaque do post e de Cida Vieira são da autoria de Túlio Vianna em 26 de maio de 2012. Os links das imagens foram todos direcionados para o álbum de cada uma delas no facebook, a fim de divulgar mais fotos da manifestação.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Fomos pegos, "eles" descobriram que nós não queremos que os oprimidos cheguem ao poder (ou: o último grande argumento social-feminista)

  1. Se as mulheres chegarem ao poder, você nunca verá uma mulher feminista falar bem de um homem. Mas pode achar elogios a alguma mulher em textos de homens machistas, na Bíblia e até no Alcorão.
  2. Se as mulheres chegarem ao poder, você nunca verá uma mulher feminista repudiar outra por discurso de ódio contra os homens. Quando um feminista precisa provar que os antifeministas defendem a violência contra a mulher, precisa de fakes e frases soltas contadas do jeito dele.
  3. Se as mulheres chegarem ao poder, você verá que feminismos são vários, mas os discordantes de uma linha do feminismo são todos iguais: são defensores da violência contra a mulher, defensores do estupro, elitistas, racistas e pedófilos, como já provou a lesbonazista brasileira Lola Aronovich com seus print screens de "mascus".
  4. Os homens feministas são proibidos de se manifestar dentro dos grupos feministas só por serem homens. Mas nenhuma sociedade, com a exceção dos países islâmicos, nega direitos às mulheres só por serem mulheres.
  5. Se as mulheres chegarem ao poder, você verá ônibus ou vagões de trem exclusivos para mulheres em nome do combate ao assédio sexual. Ninguém proporia (sem protestos) ônibus ou vagões de trem exclusivos para brancos para evitar que eles sejam roubados por negros.
  6. Se as mulheres chegarem ao poder, o lesbianismo será natural e a heterossexualidade será uma imposição.
  7. Se as mulheres chegarem ao poder, você verá os homens sendo grande maioria das vítimas de acidente de trabalho, de doenças e da violência. As mulheres no Brasil são menos de 10% das vítimas de assassinatos e quem precisa de proteção legal especial são elas.
  8. Se as mulheres chegarem ao poder, você verá imagens e cenas de homens sendo espancados serem humorismo e casos de homens castrados ou esfaqueados por mulheres comentados aos risos nas redes sociais e nas rodas de bar e de colegas de trabalho. Em países machistas hoje, imagens de mulheres com sinais de espancamento são usadas para sensibilizar a sociedade contra a violência contra a mulher.
  9. Se os negros chegarem ao poder, quando um rapaz branco tiver de atirar em um negro sob efeito de drogas que tentou matá-lo, será ele o tratado como criminoso.
  10. Já existe uma proposta no Brasil de "eleger" mulheres para metade das vagas do Legislativo federal através de lista fechada: o eleitor vota no partido e o partido escolhe os seus candidatos meio a meio. Ninguém diria que o Congresso Nacional deve ter maioria branca ou de homens.
  11. Se as mulheres chegarem ao poder, qualquer homem ou mulher defende a violência contra a mulher só por discordar do lesbofeminismo. Uma mulher feminista só defende a violência ou o genocídio contra o homem se disser isso claramente hoje sem negar amanhã.
  12. Se as mulheres chegarem ao poder, você ouvirá que os homens são dispensáveis e devem ser extintos ou deviam ser reduzidos a uma parte pequena da população, como 10%. Mas a Bíblia diz: "Nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem" (1 Coríntios 11:11).
  13. Se as mulheres chegarem ao poder, nenhuma prisão injusta de um homem ou não-prisão de uma mulher criminosa será escandalosa, e se um homem puser fogo no próprio corpo em protesto será ridicularizado. Na Índia, onde se diz que é o pior lugar do mundo para ser mulher, uma festa de ano novo foi suspensa porque uma mulher foi vítima de estupro coletivo.
  14. Ninguém diria que homens brancos de competência medíocre devem ter garantia de vaga na universidade ou no mercado de trabalho, mas muitos acham que negros vindos de escola pública devem ter cotas e que mulheres devem ser maioria em cursos de Ciência da Computação.
  15. Se as mulheres chegarem ao poder, mulheres que matam homens ganharão admiradoras no Facebook, enquanto homens serão presos sem provas e mortos na cadeia só por terem sido acusados de estupro.
  16. Se as mulheres e os negros chegarem ao poder, a defesa de direitos humanos e cidadania para homens e brancos será crime. No século XIX, a abolição da escravatura foi defendida por brancos ricos em vários países e o Feminismo foi apoiado por homens brancos ricos (você acreditou na estória de mulheres que nem podiam sair de casa sozinhas se reunindo do nada pra fazer algazarra na rua e os homens opressores com medinho?).
  17. Se as mulheres e os negros chegarem ao poder, você homem branco heterossexual vai pagar pelos crimes que você cometeu, pelos que o ancestral que você nem sabe que teve cometeu, pelos que os criminosos e agressores de verdade cometeram e pelos que nem existiram mas disseram que você cometeu.
  18. Se as mulheres e os negros chegarem ao poder, uma balconista atender bem um cliente, um médico saber os sintomas da tuberculose ou um político ser competente e ético vão ser menos motivo de preocupação do que se eles são ou não reacionários ou se nas profissões deles são ou deixam de ser tal porcentagem de negros e mulheres.
  19. Mulheres brancas do Primeiro Mundo fizeram o Feminismo. Homens negros da América fizeram o Movimento Negro. Homens brancos europeus do século XX criaram a Declaração dos Direitos Humanos.

Faltou a Abigail terminar dizendo: abaixo o ateísmo e a anarquia, pelo Cristianismo, pelo capitalismo, pela família e pela castidade. E vai continuar faltando, viram?

Abigail Pereira Aranha

(Obrigada a Vanessa de Oliveira)

Apêndice

"Vou cortar sua pica" (Lola Aronovich)

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2014/02/vou-cortar-sua-pica.html

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Esta semana que passou, algumas pessoas vieram me perguntar o que achei deste vídeo chamado "Pagu Funk", em que mulheres cantam juntas o que farão "se chegar lá na favela com esse papo de machista/ se ficar se aproveitando da b*ceta de novinha/ é militante de esquerda mas bate na companheira?/ é reacionário e fecha com Bolsonaro?", com o refrão "Vou cortar sua pica".

O refrão é intercalado com imagens de outras mulheres, de rosto coberto e corpo nu, cantando o mesmo refrão. A música também fala que "a missão vai ser cumprida", e "vem mulher com a mão pro alto pra fazer revolução", "a mina que é chapa quente não aceita submissão", "os homens vão pra cozinha rebolando até o chão", "criancinha libertária quer viver sem opressão".

Ironicamente, eu não vi o vídeo em nenhuma página feminista. Eu vi foi num fórum mascu, e imediatamente reconheci a linda menina que canta a música.

É a Lidiane, que esteve na palestra (sobre estereótipos de gênero na mídia) e na aula inaugural (sobre gênero e educação) que dei na UFRJ, em 2012, assim como no debate (sobre estado laico) no ano passado. Em 2012, Lidi e outra querida, Ima, tiraram foto comigo e me deram estes desenhos, altamente subversivos (cuidado: um deles contém desenho de gatinho; clique para ampliar).

Antes ou depois do debate em abril, Lidi veio falar comigo, e o que ela me contou me encheu de admiração e orgulho: que ela estava trabalhando com mulheres pobres em situação de risco na Baixada Fluminense.

Sabe aquilo pelo qual o feminismo sempre é criticado, de ser um movimento branco e de classe média que tem dificuldade em se aproximar das mulheres na periferia? Pois é, era justamente isso que Lidi estava fazendo. Está ainda, tenho certeza.

Quando me perguntaram do vídeo, respondi brevemente que me falta contextualização. Que tudo que sei sobre ele é o que vejo, sem saber quando, onde ou pra quê foi feito. Já recebi respostas atravessadas do tipo "Se fosse vídeo do Woody Allen você também iria defender" (aham, tenho certeza que ao ver um vídeo de funk só com mulheres, a primeira coisa que vem à mente é "Woody, cadê você?").

Isso vindo de um site do BOPE (ext
direita) que prega o extermínio

Um blog mascu disse que euzinha aqui estou por trás do vídeo, que ele faz parte "dos frutos que a Feminista Lola está colhendo com os anos de ódio misândrico que ela prega no blogue dela" (ha ha, de fato, o que mais tem aqui é ódio misândrico!). O mascu também diz que Lidi é "uma fanática seguidora" minha, e ele prova -- Lidi deixou um comentário no meu blog, dois anos atrás, e, pasmem, foi a minha palestra! Quando os mascus virem o desenho de gatinho que Lidi me deu, eles vão pirar!

Não sei quanto a você, mas quando eu ouço uma palavra como "misandria", eu rio. Porque obviamente vem de mascus, que não creem em misoginia, mas têm certeza absoluta que o ódio contra homens existe (assim como eles dizem que vivemos num matriarcado, ou numa "sociedade b*cetista"). E a prova incontestável disso é um vídeo feminista!

Sósia do Brad Pitt

Toda minha solidariedade a Lidi e às outras moças do vídeo, que certamente foram investigadas por "justiceiros mascus", e, claro, xingadas e ameaçadas, como é de praxe. Vale lembrar que o vídeo não foi postado apenas em veículos mascus, mas também em sites reaças e machistas "garden-type variety", com alcance infinitamente maior, como Kibe Loco, Não Salvo e Testosterona. Neles o vídeo foi postado como, sei lá, exemplo de que feministas são doidas, odeiam homens e não se depilam, logo, são horrendas (eu fico imaginando se eles já viram alguma mulher nua que não fosse photoshopada em revistas e filmes).

A maior parte dos comentários nesses sites é idêntica -- usando o grande poder argumentativo que aprenderam na quarta série, os rapazes (e algumas moças também) criticam os "peitos caídos" e as "pepecas peludas" das participantes do vídeo. Machistas não acreditam que feministas estão se lixando pro padrão de beleza ou pra aprovação dos homens, principalmente de homens machistas (que, nas raríssimas vezes que são fotografados, são tão bonitões quanto o Edu Testosterona).

Bom, ontem a Alexandra, de Brasília, me mandou um email. Ela, com suas amigas, já havia escrito um guest post antes aqui pro blog.

Ela conta o seguinte:

"Ano passado o CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) organizou uma Residência Artística Feminista em Brasília que reuniu 30 artistas, de 8 regiões do Brasil, para pensar e experimentar pontos de contato entre arte e feminismo. Esse encontro gerou uma série de reflexões e criações artísticas, de várias linguagens, música, dança, fotografia, performance, vídeo, pintura, cultura popular, teatro e dança (a próxima residência artística feminista acontecerá semana que vem, em fortaleza).

Naquele momento, em nossos espaços de intimidades e empoderamento, gravamos um trecho de uma música do Pagu Funk que se chama “Vou Cortar sua Pica”. A música não é nova, é uma música que já roda em espaços feministas – em especial do Rio de Janeiro – há algum tempo. No entanto, está tendo uma repercussão fora do nosso esperado e é uma divulgação que está sendo feita, em grande parte, por blogs e perfis de redes sociais de extrema direita, de vários mascus que estão se sentindo agredidos pela música e distorcendo todo o nosso discurso.

O vídeo, que foi postado há uma semana, tem mais de 200 mil visualizações, e essa polêmica toda que ele tem gerado me mostra o quanto que a ideia simbólica de cortar a pica é cara pra muitos caras, mesmo que seja a pica em situações de violência como a que a gente explicita bem na música.

Particularmente, não queremos a castração de homens e não acreditamos que essa seja a solução. Há espaços e debates onde a doçura é insuficiente porque o coração é de pedra. A gente se utiliza da metáfora da violência pra ter voz, porque em certos casos só assim há interlocução, infelizmente. As pessoas tendem a ver as mulheres como sendo doces e frágeis, e é preciso romper, desafiar e afrontar no mesmo nível que somos afrontadas.

Essa polêmica tem nos causado consequências pessoais. Na segunda-feira, quando o vídeo começou ser mais visto, eu e a Lidiane tivemos nossas contas de emails atacadas mas, felizmente, não conseguiram entrar. Lidiane mesmo saiu do Facebook porque começaram a criar um meme com o rosto dela, e ela teme o que pode ser feito a partir dessa percepção de ódio em cima da canção."

Eu fiz algumas perguntas, e Alexandra respondeu:

"Todo o vídeo foi feito durante uma Residência Artística Feminista (REAL) que aconteceu em Brasília, no final do ano passado. A realização da REAL Feminista no DF foi viabilizada pela reunião de esforços do Grupo Impulsor, formado por artivistas feministas do DF, pelo apoio e engajamento do CFEMEA e da Universidade Livre Feminista.

A parte em que a Lidiane está em nossa volta foi a primeira noite da residência onde ela começou a cantar e comecei a gravar. A parte em que as meninas estão nuas e cantando o refrão foi feito no último dia da residência. Ao término da residência artística, quando voltei para casa, vi que tinha um material bacana em mãos. Montei a versão do vídeo, mostrei para as meninas (através de um grupo fechado do Facebook que fazemos parte), elas aprovaram e lançamos muito sem expectativa.

Linda arte da Dani

Mais importante do que questionar a necessidade de estarmos nuas no vídeo, é questionar as reações que os machistas de plantão têm dessa imagem e o quanto que isso os afeta ao ponto de nos deslegitimar. Vejo a nossa nudez como uma apropriação do próprio corpo, sem qualquer traje que esconda nossas partes, como um campo de batalha que permite nos sentirmos à vontade daquele jeito.

Como não tínhamos grandes expectativas com o vídeo, coloquei no meu canal pessoal do vimeo mais para compartilhar a música entre nossas colegas, colocar a discussão e causar um empoderamento entre a gente. Faço parte de uma coletiva que se chama Tete a Teta, onde faço performance e intervenções urbanas com minha companheira. Temos um canal de vídeo e postei o vídeo por lá.

Acho que ninguém imaginava a grande repercussão tão negativa que isso ia causar. Na REAL, chegamos a conversar sobre algumas produções que fizemos por lá, que isso poderia ser mal visto. Mas na mesma hora fechamos que mesmo que isso acontecesse, estaríamos juntas, e fechamos de enfrentar o monstro. Tanto é que mesmo com tudo isso acontecendo, vai acontecer a segunda edição da REAL, próxima semana, do dia 14 ao dia 16, em Fortaleza.

Além do vídeo do Pagu Funk, na REAL do DF fizemos fotos, vídeos, poemas, e as meninas do Tambores de Safo fizeram novas músicas falando de feminismo, de liberdade, de empoderamento etc. Enfim, foi uma experiência de muita criação e fortalecimento para cada uma, no seu processo de criação e identidade ARTivista.

Imagino o que se passa na mente de um mascu ao ver mulheres fora do padrão de beleza, à vontade com sua nudez, cantando em grupo que vão cortar a pica de quem mexer com elas. O quanto que essa subversão da norma destrói seu imaginário heteronormativo, tão caro como suas picas.

Nessas horas fico pensando no poder do uso da metáfora para extinção do machismo.

Como se houvesse um poder da fala contra o falo quando se repete: vou cortar sua pica. Tanto que sabemos muito bem qual pica não é bem vinda. E sabemos isso no dia a dia, das ruas sem iluminação até a convivência com pais, tios e irmãos violentos em casa."

Publico aqui a carta aberta do Coletivo PaguFunk, que a Alexandra me enviou:

CARTA ABERTA DO COLETIVO PAGUFUNK

PaguFunk é um coletivo autônomo e apartidário de mulheres funkeiras que transmite através da cultura funk uma mensagem feminista, sobre nosso cotidiano e das nossas irmãs das/nas favelas e periferias. O nome é uma referência à militante política de esquerda e artista da década de 20, Patrícia Galvão, conhecida como Pagu. A opção pelo funk vem como afirmação de uma cultura popular , que historicamente é marginalizada e deturpada pelas classes dominantes em sua ânsia capitalista de se apropriar e/ou diminuir tudo o que vem da favela.

As rimas da PaguFunk nasce em um território onde a cada 5 horas é registrado um caso de estupro. Na região onde apresenta os maiores índices de homicídios contra jovens do estado do RJ. Onde matam uma trans* por dia.

É nesta conjuntura que mulheres optaram fazer versos e compartilhar suas vivências, como forma de transformar o cotidiano, onde é nulo o incentivo a produção e até mesmo do consumo não comercial dos aparelhos culturais e de entretenimento.

Buscamos incentivar o empoderamento e autonomia através de uma postura do "Faça Você Mesma", através de saraus, cantando nas praças e organizando oficinas musicais e de gravação, em bibliotecas comunitárias feministas e populares. Repudiamos o viés colonizador, com o qual muitos grupos de fora agem nestes locais, só os usando como objetos de pesquisa ou "circo exótico".

Temos profundo respeito pela cultura local e pelos saberes individuais e são essas pessoas que influenciam diretamente nosso modo de ação. Ação esta que tem como sonho e meta transformar a realidade local desesperadora que vivenciamos diretamente nas ruas, becos, nos dias de alagamento, nas filas dos hospitais, na violência policial, nos ônibus lotados que somos obrigadas a pegar quando vamos trabalhar, principalmente, no que tange a classe proletária, negrxs, mulheres e trans.

Nesta caminhada pela militância política já cantamos desde encontros estaduais de mulheres até em calçadão de bairro. E entre esses convites surgiu a oportunidade de participarmos da Residência Artística Libertária Feminista (REAL), onde foi gravado um vídeo que vem sofrendo vários ataques machistas e misóginos por parte de reacionários na internet.

Este texto surge como meio de reflexão sobre algumas respostas negativas que este vídeo teve. Agradecemos também todas as companheiras, amigas, ativistas e militantes, pelas palavras de apoio, carinho, identificação e afinidade. O texto está cheio de chavões, frases já debatidas quase a exaustão dentro dos movimentos feministas e de mulheres, mas não conseguimos escapar disto, pois aparentemente ainda há pessoas que não entenderam, uma vez que a maioria das respostas negativas que tivemos, é baseada dentro do senso comum machista e a gama de misoginia e ódio que ele desperta. Não nos interessa, entretanto, debater ou conversar com estas pessoas, eles já escolheram um lado, já tem uma posição, um modo de atuação que é totalmente antagônico ao nosso, somos inimigas destes homens machistas e misóginos.

Então, mais uma vez, machismo e feminismo não são as mesmas coisas, o primeiro é derivado direto da estrutura patriarcal com que foi moldado o nosso processo civilizatório, nossa cultura e o reflexo disto em hábitos e costumes que levam a opressão, espancamento, morte, escárnio, estupro, depreciação e não aceitação de tudo aquilo que foge aos padrões masculinos e heteronormativos.

Já o feminismo é uma resposta a isto, um meio legitimo de auto defesa de um grupo historicamente oprimido. Não somos nós mulheres, lésbicas, degeneradas, trans, homos, que saímos em gangues espancando, estuprando e torturando pessoas dissidentes do padrão patriarcal. Isto quem faz são eles, que impregnam o mundo com uma cultura de ódio que só beneficia uma ínfima parcela da população, enquanto a maioria é incentivada pela ideologia machista a duelar entre si.

Para quem ainda não ouviu a música, ela fala de uns tipos bem específicos de homens, fala dos pedófilos, dos agressores, dos reacionários... Uma vez, ao cantarmos esta música em uma praça e sermos abordadas e questionadas por um homem sobre ela, nossa resposta foi "Se você não é pedófilo, nem agressor, nem machista, não tem nada a temer". Acho que esta resposta continua sendo válida.

No entanto a nossa avaliação deste episódio é positiva, sabemos que nenhum grupo oprimido conseguiu o fim desta opressão de uma forma pacífica, foram necessárias revoltas, revoluções políticas, econômicas e culturais. Nos cabe aqui incentivar a outras mulheres que façam o mesmo, gravem vídeos, músicas, escrevam textos, saiam às ruas, se mostrem, vivam, respirem, amem outras mulheres, formem coletivos, produzam diversas formas de arte.

Assim como ninguém é machista sozinho, afinal é necessária toda uma estrutura social que respalde isto, ninguém é feminista sozinha, é necessário respaldarmos e apoiarmos umas as outras. Os machistas odeiam essas coisas, perdem o espaço, eles estão acostumados com uma sociedade voltada aos interesses deles, quando mostramos outra, eles piram e perdem. Sabemos que estas respostas que o vídeo teve, significa perda de espaço que eles tiveram, por isto, continuaremos a fazer mais e mais. Ecoaremos nossas vozes nas ruas, nos protestos, nas marchas, nas manifestações, nas escolas, bibliotecas comunitárias incentivando uma educação popular feminista "por nós, pelas outras, por mim”.

Meu comentário: Meu apoio a essas guerreiras. Não sou filiada a partidos políticos, não faço parte de nenhum coletivo feminista (mais por total falta de tempo do que de vontade), mas admiro muito quem tem a disposição de fazer a luta na rua, na favela, na periferia, em espaços não virtuais.

"Cortar a pica" não seria a linguagem que eu usaria, mesmo metaforicamente, porque ainda estou aliada a uma mentalidade (que, eu sei, muitxs julgam burguesa) de que é possível fazer a revolução com paz e amor. Mas reconheço que há inúmeros meios de lutar, e não é o meu jeito que está certo, e o de outras ativistas, errado. E também acho que os feminismos não são incompatíveis entre si.

Entendo que há textos e imagens que fazemos para nós, para o nosso empoderamento, que é tão importante. E há aqueles que fazemos para outras pessoas, para, talvez, espalhar a nossa luta, para conquistar mais corações e mentes. Penso que o vídeo do Pagu Funk foi feito com o primeiro propósito, e que ele pode dar muito poder às mulheres, nenhuma das quais sairá por aí com um facão ou tesoura disposta a cortar picas. Concordo que não há diálogo com mascus, machistas e reaças.

Sim, esses caras já pensam o que pensam de feministas (e de qualquer outro ativista), e eles não são terrivelmente criativos: eles chamam mulheres que lutam de mal amadas, lésbicas, machonas, barangas com inveja do pênis ou falta de rola (sem perceber que são ofensas contraditórias)... desde 1850, por aí. As sufragistas eram chamadas de exatamente as mesmas que coisas que qualquer feminista é chamada hoje.

E eles têm muito medo porque sabem que seu mundo está ruindo. Porque sabem que a luta é forte, e justa, e necessária.

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