quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Sexo e alienação

Abigail Pereira Aranha
A gente aprende que o sexo é sujo e vergonhoso, principalmente nós mulheres. A não ser dentro do casamento, mas isso porque o casamento é sagrado, mais sagrado do que o sexo é sujo. E ainda assim, quanto menos prazer melhor.
E o casamento forma a família, que é a base da sociedade. Sem ironia. Ainda vou falar sobre a família em um outro texto. O casamento é um jeito de controlar o homem. Sendo casado, o homem tem uma casa, tem filhos, tem uma família pra cuidar, e por isso está mais sujeito a ser explorado, alienado e desrespeitado. Os casados costumam deixar quando morrem, não um mundo um pouquinho melhor, mas herança, sobrenome e filhos pra substituí-los no trabalho. Repare que homem casado em livro de História é político ou rico. E mulher casada na História é a mulher dele.
E tem a prostituição também. A ilegalidade da prostituição na verdade é a ILEGALIDADE DO SEXO. Ainda vou fazer um texto sobre isso. Mas a prostituta é a mulher com quem o homem insatisfeito sexualmente faz o que a mulher não aceita e ninguém pode saber, e a mulher que ninguém pode saber que ele procura.
Casamento é a posse do sexo, mas essa posse usa mais a alienação do que guardas ou coisa assim. É assim. O homem pode gostar de sexo. Quanto menos melhor, mas pode. O homem aprende que sexo é bom. O homem aprende que quanto mais sexo ele der conta de fazer e quanto mais mulheres ele conseguir mais homem ele é. Aí ele vem atrás de nós mulheres. Mas nós mulheres... não podemos imaginar sexo, não podemos ver sexo, não podemos ouvir falar de sexo, porque mulher aprende que sexo é nojento, horrível. Mulher aprende que se gostar de sexo é puta. E não vamos confundir gostar de sexo com ir pra cama alegremente satisfazer o "seu homem" e ser cheia de frescura com todos os outros. Mas mulher também aprende que casamento é benção. Ou, pelo menos, um bom negócio (dinheiro mesmo). Mulher também aprende que filho é presente de Deus. Então, homens procuram sexo e mulheres procuram casamento e filho. As mulheres aprendem a detestar sexo, então só vão fazer em último caso: ou obrigadas, ou pra conseguir alguma coisa (dinheiro, favor, filho, casamento), ou como quem vai pra forca (sexo por amor não é isso, meu bem?). Então, lá vão os homens pra prostituição ou pro casamento.
Vamos admitir. Pro homem, a única coisa que presta em quase todos os casamentos é sexo seguro (ou, melhor dizendo, covarde), filhos pra continuar o sobrenome e alguém pra cuidar dos filhos e dos bens. Se a mulher quer um homem para bancá-la, ela é trouxa, interesseira ou preguiçosa. Se ela quer um pretexto para transar em paz, casar não resolve, ou até complica mais ainda. Se ela quer filhos, pode até ser bom casar, mas não é preciso prender o pai da criança exigindo fidelidade. Se ela quer prestar uma conta pra sociedade (não ficar pra titia), aí é a maior bobagem.
E porque as mulheres cuidam tanto da aparência e de mostrar os seus lindos corpinhos se não vão dar pra ninguém? Tem mulher que gosta de sair pra rua com uma roupa quase arrebentando de justa ou curtíssima ou com uma blusa com os peitos quase saindo só pros homens olharem e cochicharem como ela é gostosa. E as que não estão com essa bola toda gostariam de estar pra fazer a mesma coisa. Mas ai de quem insinuar de leve na cara dela como ela é gostosa. Mulher assim é muito idiota. Reclama de ser vista como objeto, mas ELA É OBJETO, um corpo pra atiçar os homens e deixar o dono dela (o namorado ou marido cretino) mais orgulhoso, mas um corpo fútil e que tem nojo do sexo. Mostra o corpo fingindo que esconde, pra provocar mesmo. Está quente? É desculpa, porque camiseta e saia dá pra usar no calor. O problema é de quem olha? Quer sair pelada na rua e os outros que virem a cara? Os homens não têm respeito? Respeito por quem? Por uma mocinha reprimida, hipócrita e exibida? Os homens só pensam naquilo? E aquilo é ruim? O lindo corpinho da senhorita é pra ela conseguir um casamento, que prende o homem a ela e ao sistema que consome a vida dele. Depois que ela se casa e tem filhos, pode ficar chata, fresca e horrorosa. Falta tempo pra se cuidar? O trabalho de casa é pesado? Os filhos dão trabalho? Como é que não tinha nada disso quando ela queria ficar bonita e gostosa?
E aquelas mulheres que mostram os seios em público, homens que fazem bundalelê e coisas do tipo? E homens e mulheres que aparecem em páginas pornográficas (e não são atores nem da prostituição) ou tiram fotos eróticas em ambientes mais íntimos? E os que vivem falando palavrões ou fazendo gestos indecentes? Eles são imorais, devassos, pervertidos? Ou pelo menos mais liberais e menos reprimidos que os outros? Nem sempre. Como é que você fica sabendo das fotos ou dos casos, pra começar? Eles que contam? Talvez, se a pessoa for muito sua amiga. Mas quase sempre você fica sabendo porque o caso ficou falado ou alguém tirou a foto e espalhou. A pessoa mesma, pode se achar o cara se for homem. Se for mulher, no dia seguinte não sabe onde estava com a cabeça quando fez aquilo e pede a Deus pra que ninguém se lembre de falar com mais alguém, principalmente com a família ou o namorado. Caso contrário, sua vida estará destruída, porque tentou cumprir o seu papel de mulher de respeito e não conseguiu. Quantas delas não ficavam sozinhas nem com um amigo pra ninguém achar que ela não é uma "mulher honrada"? Ou seja, não ter vergonha do seu corpo foi um tipo de bebedeira moral (às vezes, numa bebedeira mesmo), um momento de lucidez, uma raríssima exceção à regra de repressão. Ou mostrar o corpo foi um jeito de chocar. Não fazendo um protesto contra a moral cristã hipócrita e degradante, mas fazendo um gesto que essa mesma moral acha nojento, portanto quem fez isso pensa como uma beata reprimida qualquer, e fez o que fez na falta de algo melhor para chocar alguém. E esse algo melhor poderia ser justamente estar tão à vontade com a sexualidade quanto quis parecer.
E o homossexualismo? Parece que é mais fácil pra algumas mulheres gostar de mulher que de homem e pra alguns homens gostar de homem que de mulher. Assumir uma sexualidade normal exige coragem, e essas pessoas não têm. Mas as pessoas preferem uma bicha metida ou uma sapatão mal amada do que uma pessoa de bem com a sexualidade e sem frustrações em geral.
Já ouviu falar de sublimação? É você pegar a energia guardada pelo sexo que você não faz e usar pra outras atividades, como estudo ou trabalho. Atividades úteis, dizem. Entendeu, né? Você se esquece que você é uma pessoa sexuada e se faz de máquina de trabalhar. Pensar só naquilo realmente não dá certo, mas achar que pensar em sexo é falta do que fazer também é ruim. Faz mal, eu mesma já tive gente já falou comigo que sou uma pessoa mais alegre, mais bem-humorada porque eu não me reprimo sexualmente.
Você era uma beata reprimida (chamada também de mulher honesta, direita, pura,...) e achava que era uma mulher de qualidades, dona do seu próprio corpo e que pensava por si? Primeiro você se tornou incapaz de fazer sexo por prazer. Depois, vendo algo tão natural e gostoso como indesejável, você se tornou capaz de abrir mão do seu próprio bem-estar. É bem sabido que mulheres que se reprimem sexualmente ficam mais mal-humoradas e trabalham mais (Isso é bom? Pra quem, meu bem?). Por sua causa homens tentam ganhar mais dinheiro, perdendo mais da sua vida no trabalho. Você, mulher honrada (como se gostar de sexo fosse desonra) é responsável pelos males do mundo, não por ser descendente de Eva (Gênesis 3: 17, Provérbios 31: 3, 1 Coríntios 11: 3, 1 Timóteo 2: 13, 14), mas por seguir os padrões religiosos. Aqueles padrões que você engole pensando que são pensamentos seus. Aquela moral absurda e hipócrita enlatada que você acha que é um padrão vindo dos céus.
E o ciúme? Você homem primeiro se acha dono ou protetor das suas filhas, das suas irmãs, da sua esposa, do seu marido. Aí você não deixa ninguém chegar perto. Você está ajudando o sistema que fez você próprio frustrado na criação de uma falta de sexo, pra que ele o use do jeito que lhe convém. E você achando que está protegendo alguém. E fora que o trabalhador, que não é dono de quase nada além do corpo com que ele trabalha, fica sendo dono de alguma coisa. Isso acalma, né?
Os inocentes acham que têm uma virtude ao ter vergonha ou nojo de um prazer legítimo e natural. Pobres dos jovens cristãos que acham que decidiram pela castidade por si mesmos. Se um dia eles descubrirem a verdade, vão ter tanto de que se arrepender. Falo isso de experiência própria.

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