quarta-feira, 30 de março de 2016

Como o Petrolão pode enterrar o Conservadorismo-Liberalismo - parte 1: iniciativa privada

Abigail Pereira Aranha

Os direitistas e os conservadores ainda poderiam passar para a História como quem freou algo ainda pior, que é o Socialismo. Em vez disso, eles não apenas repetiram o mesmo discurso dos anos 1950, eles também deixaram a esquerda continuar com os mitos sobre si mesma e sobre a direita. Ou pior, eles mesmos repetiram esses mitos algumas vezes. Eu já tinha em mente explicar como o esquema da Odebrecht no Petrolão refuta o Liberalismo e abala todo o pensamento de direita quando eu vi o texto "Relação promíscua entre empreiteiras e governo começou na ditadura militar", de Fernando Rodrigues[1], compartilhado pelo Luciano Ayan. Vou copiar um trecho:

Só para lembrar, até o final dos anos 60, a atual gigante Odebrecht era apenas uma empresa local da Bahia. Depois do decreto de Costa e Silva, despontou para o sucesso construindo o prédio-sede da Petrobras no Rio de Janeiro (em 1971), aproximando-se dos militares que comandavam a estatal, conforme relata reportagem de Marco Grillo, que buscou as informações no livro "Estranhas catedrais – As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar" (Editora da UFF, 444 pág., 2014), resultado da pesquisa para a tese de doutorado "A Ditadura dos Empreiteiros", concluída em 2012 pelo professor Pedro Henrique Pedreira Campos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

(...) Antes de a ditadura militar consolidar a reserva de mercado para as empreiteiras nacionais, a tese do professor Pedro Campos mostra que havia um domínio de empresas estrangeiras no Brasil:

Empreiteiras-Brasil-seculo20

No início da década de 70, as coisas começaram a mudar drasticamente, (...) com a evolução das empreiteiras Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior e Odebrecht no ranking das maiores do país (...).

A simbiose entre o público e o privado na época da ditadura se dava com a colocação de militares em cargos de direção nas empresas que forneciam para obras de infraestrutura. Os generais iam parar em diretorias e conselhos de grandes corporações.

Dois dias depois, um amigo compartilhou uma postagem do blogue O Cafezinho intitulada "Horror! PF tortura senhora doente pra extrair delação do marido contra Lula"[2]. A estória é mal contada, mas a autora (Conceição Lemes, do Viomoundo) traz uma nota interessante:

Parênteses: a Zelotes original, que apurava sonegação de impostos de R$ 21 bilhões por grandes empresas, como Bradesco, Santander, Grupo Gerdau, Mitsubishi, e Grupo RBS, afiliado à TV Globo no Sul, foi abandonada pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF), sem maiores explicações até agora. Fechado parênteses.

Faz sentido. Afinal, a Polícia Federal e o Ministério Público eram quase serviçais do PT e do PSOL, até que o PT fez tanta porcaria que não dava mais. Vou pegar o caso do Santander, que eu conheço melhor: é aquele banco em que uma analista fez uma previsão da crise em que já estamos e preparou uma carta sobre propostas de investimentos para clientes, e ela foi demitida a pedido do Lula ao presidente do banco. E o banco, na ocasião, foi demonizado pelos lulopetistas (por causa da carta, não da demissão da analista). Demonizado literalmente, foi apelidado de "Satãder" com meme com desenho do vermelhinho.

O PT com seus soldados vai tentar derrubar a Odebrecht e o PSDB para não cair? Vai. Mas se Dilma Rousseff cair, se até todo o PT for banido da vida política, a direita vai cair junto:

1) Dilma Rousseff vai cair junto com a tese de que a iniciativa privada e a estrutura estatal são inconciliáveis, e que a iniciativa privada quer e precisa de distância do Estado para crescer.

2) Dilma Rousseff vai cair junto com a tese de que o Capitalismo é um sistema cultural antagônico ao esquerdismo. Se lembram da matéria "O que o caso do bar Quitandinha ensina sobre redes sociais" da revista Exame[3], que foi uma petrolagem de BLOSTA[4], há menos de um mês e meio atrás?

3) Dilma Rousseff vai cair junto com a intelectualidade liberal. Por exemplo, no dia 25, o UOL Notícias publica uma entrevista com Flávio Rocha, presidente da Riachuelo: "Sem Dilma, retomada dos investimentos seria 'instantânea', diz presidente da Riachuelo"[5]. Como os meus amigos liberais podem ler lá coisas que eles acreditam, podem não se dar conta de que só a data em que a entrevista foi publicada é 12 dias depois dos protestos populares contra a Rainha Louca, com 3 milhões e meio de pessoas, e 7 dias depois do contraprotesto dos petralhas[6] em que eles passaram vergonha com muito menos gente. Depois, alguém da BLOSTA vê essa entrevista e diz que é prova de que as grandes empresas brasileiras estão por trás das manifestações. Bom, por trás estão mesmo, mas naquele outro sentido.

4) Dilma Rousseff vai cair junto com o que tirou o Conservadorismo-Liberalismo da invisibilidade e da irrelevância em que estava há 15 anos atrás: um governo Lula - Dilma Rousseff pra falar mal. E aqui não é só questão de má administração ou desvio de dinheiro público: se o novo presidente for Michel Temer ou Aécio Neves, quando nós falarmos de Feminismo, de Movimento LGBT, de Movimento Negro, de comunistas na Igreja Católica, vão dizer que a gente está com o discurso do tempo em que o PT estava na presidência (e o PT era de direita e apoiado pelos grandes empresários).

Dilma Rousseff vai cair e levar a direita junto, não a esquerda. Naquela entrevista com o presidente da Riachuelo, podemos ver clichês "neoliberais" como "Estado mínimo, com uma atuação na regulação mínima" e "o socialismo fracassou em todas as ocasiões em que foi testado". Enquanto até a grande maioria dos manifestantes antipetistas repetem os mesmos clichês da direita da década de 1990, a esquerda pode estar se preparando para se safar. O PT pode queimar a dona Dilma, outros partidos de esquerda podem queimar o PT ou a própria militância esquerdista pode queimar todos os partidos que se dizem de esquerda. Talvez tudo isso ao mesmo tempo. Mas só o envolvimento da Odebrecht com o PT já mostra por que o Liberalismo e, ainda mais, o Ultraliberalismo (vulgo Anarcocapitalismo ou ANCAP) são glorificação grupal de netos de coronel em fóruns insignificantes na internet: os grandes empresários apoiam os socialistas no governo (embora nem sempre o governo socialista) exatamente pelo lucro[7]. Mas como a militância esquerdista tem um quase monopólio do discurso, ainda pode usar as provas do pior caso de corrupção conhecido da história do Brasil para descartar os cúmplices e ainda sair mais forte do que nunca.

NOTAS

[1] "Relação promíscua entre empreiteiras e governo começou na ditadura militar", Fernando Rodrigues, 24 de novembro de 2014, http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2014/11/24/relacao-promiscua-entre-empreiteiras-e-governo-comecou-na-ditadura-militar.

[2] "Deputado Paulo Pimenta denuncia: PF mantém presa em condições precárias para forçar a delação premiada do marido", Viomundo, 24 de janeiro de 2016, http://www.viomundo.com.br/denuncias/paulo-pimenta-denuncia-que-pf-mantem-empresaria-presa-em-condicoes-precarias-para-forcar-delacao-premiada-do-marido.html. Também em O Cafezinho, http://www.ocafezinho.com/2016/01/25/horror-pf-tortura-idosa-doente-pra-extrair-delacao-do-marido-contra-lula, com o título "Horror! PF tortura senhora doente pra extrair delação do marido contra Lula".

[3] "O que o caso do bar Quitandinha ensina sobre redes sociais", Exame, 17 de fevereiro de 2016, http://exame.abril.com.br/pme/noticias/o-que-o-caso-do-bar-quitandinha-ensina-sobre-redes-sociais.

[4] BLOSTA: Blogosfera Estatal. Os blogues que são pagos com dinheiro público desviado pelo PT para falar bem dele e mal da oposição (e que geralmente são insginificantes e só petistas leem e levam a sério).

[5] "Sem Dilma, retomada dos investimentos seria "instantânea", diz presidente da Riachuelo", UOL Notícias (por BBC Brasil), 25 de março de 2016, http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2016/03/25/sem-dilma-retomada-dos-investimentos-seria-instantanea-diz-presidente-da-riachuelo.htm.

[6] "pe.tra.lha adj e s.cddd(o/a) Pejorativo 1. Que ou pessoa que, sem nenhum escrúpulo, não vacila em cometer to e qualquer ato marginal à lei, como usurpar, mentir, extorquir, ameaçar, chatagear, roubar, corromper, ou que defende com ardor ladrões, corruptos, usurpadores, mentirosos, cínicos, extorsionários, chantagistas, etc. que, porém posam de gente honesta e defensores intransigentes da ética: jornalista petralha; jornaleco petralha; há petralhas nesse governo? \ s.f. (a) 2. Petralhada: se há algo positivo nas agressões que a petralha vem dirigindo contra a imprensa é o fato de que, finalmente, o verdadeiro caráter dsse grupo veio à tona \ adj. 3. Característico ou próprio desse tipo de pessoa; sórdido; nojento/ asqueroso; canalha; calhorda: comentário petralha; o jeito petralha de governar; a agressividade petralha. AE Este neologismo foi criado pelo jornalista Reinaldo Azevedo, que o formou de petista (em referência ao simpatizante ou membro desonesto, aloprado ou inescrupuloso do PT) + Irmaãos Metralha, gêmeos bandidos atrapalhados das estórias em quadrinhos e dos desenhos animados r. petralhada (pe) s.f. (bando de petralhas; petralha(2)]" (Dicionário Sacconi, citado por Reinaldo Azevedo, "A atualização do verbete 'Petralha' no Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa, aquele que já traz a palavra 'mensalão'", 28 de março de 2012, http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-atualizacao-do-verbete-%E2%80%9Cpetralha%E2%80%9D-no-grande-dicionario-sacconi-da-lingua-portuguesa-aquele-que-ja-traz-a-palavra-%E2%80%9Cmensalao%E2%80%9D)

[7] Aquela entrevista do presidente da Riachuelo dá um exemplo didático, didático dos erros dos liberais, não da ideia que eles pregam:

BBC Brasil - E a corrupção no setor privado? A própria Lava Jato revelou que também há empresários corruptos.

[Flávio] Rocha - (...) A livre concorrência ajuda a acabar com a corrupção. Por exemplo, se eu tiver na Riachuelo um comprador de gravatas corrupto que tenha feito um acerto com o fornecedor, a gravata será mais cara e a Riachuelo vai perder participação no mercado. Isso não acontece na Petrobras.

Mesmo que isso seja verdade, a iniciativa privada quer mesmo a livre concorrência? O próprio exemplo prova que: 1) nem todo empresário quer vencer por jogo limpo; 2) um esquema de corrupção de empresário privado com o setor público ou mesmo com outro empresário privado pode ser mais lucrativo para ele do que a livre concorrência; 3) uma empresa privada pode ganhar espaço no mercado não dentro da livre concorrência, mas contra ela. Mas, meu caro, você diria isso se a Petrobras já estivesse no Petrolão mas ainda fosse a maior empresa do Brasil?

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