sábado, 22 de novembro de 2014

A virtude é ódio à iniquidade

Abigail Pereira Aranha

Afastarei de mim pensamentos desonestos e não terei nada a ver com a maldade. Destruirei aqueles que falam mal dos outros pelas costas e não suportarei os orgulhosos e os arrogantes. Nenhum mentiroso viverá no meu palácio; nenhuma pessoa fingida ficará na minha presença. Cada dia destruirei os maus da nossa terra.

Muitos entendem como pessoa de bem a pessoa que apenas não é desonesta, não é agressiva, não faz isso, não faz aquilo. Isto é, a maldade, a desonestidade, a agressão têm definição; a bondade, o caráter, a mansidão são um vazio de vícios. Está tudo errado! A justiça não é só o contrário da injustiça, é a aversão a ela (olha só, cabe um duplo sentido aqui). A honradez não é só o contrário da desonra, é a aversão a ela. A pessoa que é entendida como honesta porque não faz, não é, não diz é uma pessoa alienada com medo da polícia na melhor das hipóteses ou uma pessoa de mau caráter que não se mostrou e não foi desmascarada na pior. E o bom caráter é uma construção pessoal que parte de uma escolha racional. Então, ser reto pode ser para analfabetos, mas não é para fracos nem para alienados. Vou dar alguns exemplos.

Nenhum administrador ou chefe é conhecido como pessoa justa porque não comete atos errados mas deixa os subordinados cometerem. O próprio Código Penal brasileiro tipifica a condescendência criminosa no serviço público, que é "deixar o funcionário, por indulgência, de responsabilizar subordinado que cometeu infração no exercício do cargo ou, quando lhe falte competência, não levar o fato ao conhecimento da autoridade competente" (art. 320). Portanto, pelo menos no serviço público, a tolerância com uma infração vira ela mesma outra infração.

Se considerarmos a castidade como virtude, a pessoa casta sente incômodo com qualquer imagem, som ou ideia que seja contrária à castidade. E este incômodo pode se tornar uma ação contra coisas ou pessoas, mesmo que não seja uma ação violenta. Se considerarmos o contrário, que a virtude é a liberalidade sexual, é a castidade que é o vício, e a pessoa liberal vai sentir incômodo com qualquer coisa que represente ou pregue a castidade, e vai agir e pregar contra ela, mesmo que não seja uma ação violenta.

Toda mulher que diz que não é feminista que eu já vi tem um perfil em rede social com "piadas" que depreciam ou pregam violência contra os homens. Ou só diz que é contra canalhices de mulher contra homem porque alguém, geralmente homem, tocou no assunto. Essa mulher não se choca com mais de 80% dos mortos por acidente de trabalho serem homens, mas se revolta com serem poucas mulheres na política ou trabalhando como engenheiras civis. Você mulher não é feminista nem lésbica? Vá falar de sexo hétero em um fórum feminista, depois volte pra contar a resposta. Se uma mulher não é feminista, ela é feminista. Se ela é contra o Feminismo por causa de algum ponto, como o aborto, ela é feminista. Não existe mulher não-feminista, existe mulher antifeminista. A mulher que tem realmente a prática da dignidade humana como valor odeia o Feminismo porque ele é um supremacismo de lésbicas psicóticas ou medíocres. A mulher que não odeia o Feminismo por isso odeia quem mostra que o Feminismo é isso.

Muito parecido com isso, todos os que se dizem acima da polarização de esquerda e direita são esquerdistas, ridicularizam apenas os direitistas cristãos, só condenam coisas erradas no Ocidente cristão democrático, quase só leem portais esquerdistas. Assumindo que eles não sejam esquerdistas que não se assumem publicamente, eles são esquerdistas práticos, porque só odeiam a direita. Vamos lembrar que o esquerdismo é antidemocrático, então esses "neutros" odeiam a simples discordância da esquerda.

Eu já tinha em mente escrever esse texto desde antes do segundo turno das nossas eleições para presidente. E eu escrevi a respeito das pessoas que não discutem e não gostam de política ainda na campanha do primeiro turno ("Por que não chutar cavaletes de propaganda eleitoral: a esquerda militante e o seu povo revoltado"). Essas pessoas nivelaram a política brasileira em geral pelo Partido dos Trabalhadores, que foi um partido que não fez só corrupção, também atacou a própria estrutura da democracia; ou nivelaram o PT pela política normal da história anterior ou pelos ataques do próprio PT em blogues financiados por estatais. No caso do Brasil, pudemos ver o abismo mental e moral que separa os eleitores do PT das pessoas mentalmente e moralmente decentes (escrevi um texto sobre isso: "Ser lulopetista é ser criminoso: Aécio Neves é ameaçado de morte, Brasil 247 diz que ele 'se diz' ameaçado e vários lulopetistas apoiam o crime (se FHC chamou o eleitor do PT de ignorante, falou dos poucos melhores)"). Por fim, quem votou nulo ou se absteve de votar porque "odeia política" se somou a quem votou no PT pelos programas de assistência social herdados do governo antecessor, pelo sistema de cotas raciais na universidade para alunos medíocres da escola pública ou pelo medo de perder o emprego no serviço público; e estes primeiros ajudaram a reeleger o pior da política pelo menos dos últimos 50 anos, o PT. Aliás, esse episódio já derruba a tese de que o povo brasileiro é na maioria honesto, como se já não parecesse extraterrestre um estudante que sempre fez as provas de escola e faculdade sem "cola" ou um cidadão que devolve troco errado a mais.

O ódio não é errado em si, ele pode ser errado pelo objeto errado ou pela forma errada. Pessoas que praticam o ódio ou mesmo a raiva pelo objeto certo e de forma produtiva podem ser modelos. E o ódio não é necessariamente destrutivo. Eu posso ser feliz exatamente porque odeio o que não presta e, agindo contra o que não presta de forma produtiva, atraí coisas e pessoas boas. E o amor a uma coisa ou pessoa significa ódio a qualquer coisa ou pessoa que faça mal à coisa ou pessoa amada. Aliás, eu tenho ódio no coração pra caramba. Odeio a pobreza intelectual, odeio a pobreza de caráter, odeio falta de respeito contra os homens que prestam, odeio gente sem caráter e sem competência que quer subir na vida mais do que merece e outras coisas. Por isso os melhores homens que me conhecem também me amam e me dão alegrias, e eu faço o que posso para dar pra eles também (alegrias, mas também essa que vocês estão pensando). Xi! Acabei de defender o ódio, hehehehe. Ah, eu também tomei ânimo para escrever esse texto porque anteontem saiu a notícia de que "o governo federal irá mapear crimes de ódio na internet". Lembrando que chamar homens de cachorros ou exibir uma imagem de uma mulher ao lado de homens mortos não é crime de ódio nem no Facebook.

Ah, e o primeiro parágrafo deste texto é Salmo 101: 4, 5, 7 e 8 na Nova Tradução na Linguagem de Hoje. E ainda amaciaram o texto. Na Almeida Corrigida e Revisada Fiel, está assim: "(4) Um coração perverso se apartará de mim; não conhecerei o homem mau. (5) Aquele que murmura do seu próximo às escondidas, eu o destruirei; aquele que tem olhar altivo e coração soberbo, não suportarei. (7) O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; o que fala mentiras não estará firme perante os meus olhos. (8) Pela manhã destruirei todos os ímpios da terra, para desarraigar da cidade do Senhor todos os que praticam a iniqüidade." Mas imagine um pastor hoje em dia pregando isso no púlpito ou escrevendo isso no Facebook.

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