terça-feira, 2 de junho de 2015

É um prazer admirar os atributos morais de Raquel

Abigail Pereira Aranha

CAPÍTULO 1 - 31 DE MAIO DE 2013

Raquel Pureza de Morais é engenheira civil, inteligente, excelente profissional, excelente colega, excelente filha, excelente amiga e prostituta. Ela também é linda, gostosa e alegre. Ela chegou para o trabalho pela Construtora Crescente Oriental e nos deu um bom dia. A saudação é geral, mas eu também ganho um beijo no rosto.

Meu nome é Clark Kent dos Santos, tenho 22 anos, sou pedreiro. Sim, eu já "fiquei" com ela algumas vezes. De mim, ela não cobra, só pediu para eu não comentar com os colegas, que também já sabem. Ah, ela atendeu dois dos meus colegas, mas eles ficam com medo de mostrar "intimidade", porque eles são casados.

Dessa vez, a obra é de um shopping center. Estavam um pedreiro, dois estagiários, o engenheiro hidráulico e uma outra engenheira civil no escritório da obra. A Raquel tem contato frequente com os donos do empreendimento (quatro homens) e alguém comentou que ontem ela estava em um carro com os quatro. Eu escutei do lado de fora:

- Pois é, a gente conversou sobre coisas desta obra, fomos a um restaurante e eles me levaram pra casa. Gente, a minha relação com eles é profissional.

- Você é engenheira e é prostituta. A qual profissão você se refere?

- Xi! É mesmo!

Fora aquela outra engenheira, todos riram. Eu também. Como ela tinha me visto do escritório, depois ela me contou que o mais bonito deles (palavras dela) também já foi atendido no outro trabalho dela.

Eram quase 18:00, o meu pai foi me procurar. A Raquel tinha saído e estava voltando, ela chegou logo depois do meu pai.

- Nestor! Se lembra de mim? Você está com medo de estar me confundindo. Calma, nem toda mulher se ofende sendo chamada de safada.

- Raquel?

- Sim, a Raquel da zona de 94, 95. Quando eu conheci o seu filho e me lembrei das fotos dele com 3 anos que você me mostrou, eu pensei que poderia estar imaginando muito.

Raquel nos levou à própria casa e nos apresentou à filha única. Depois de um tempo com a filha, ela nos levou no carro dela até a casa do meu pai, a mais de 30 quilômetros, em uma cidade vizinha. Ela conheceu a minha mãe, de longe, ela estava esperando um ônibus em um ponto no caminho. Quando a minha mãe nos viu, a Raquel acenou para ela, mas ela continuou com a cara feia. Mas nós três sorrimos.

- Eu já amei muito essa mulher, mas depois que eu me separei dela, a minha vida só foi pra frente. Ela tomou ferro até no divórcio.

Chegamos à casa do meu pai, ele convidou a moça para entrar. Ela já ia mesmo pedir um copo d'água. Dentro da casa, ela conheceu o meu irmão, quatro anos mais novo que eu, que mora com o meu pai. Eles conversaram rapidamente e gostaram um do outro. Enquanto isso, o meu pai preparava um lanche para nós. Então, ele disse:

- Dona Raquel, pode ficar à vontade.

- Muito obrigada!

Ela tirou a camiseta, estava sem soutien. O meu irmão deu um olhar mistura de "como assim?" com "que tetas gostosas!". Ela disse:

- Não se assuste, gatinho, o seu pai e o seu irmão sabem como eu gosto de brincar. Vamos ao lanche enquanto essas picas viram pedra.

Depois do lanche, nós fizemos um "três em uma". Mas na viagem, o meu pai e a Raquel contaram como se conheceram.

CAPÍTULO 2 - ALGUM DIA DE SETEMBRO DE 1994

A Raquel tinha chegado naquela casa noturna havia quatro meses. O meu pai já sabia sobre o lugar, mas nunca tinha ido a um puteiro antes. Ele passou pela Raquel, ela percebeu que ele estava acanhado, ela chegou até ele como uma vendedora de loja atenciosa.

Eles tinham meia hora, mas eles puderam conversar um bocado, ela é brincalhona e conseguiu fazer ele relaxar e se abrir. Ele conheceu, logo no começo, duas coisas que ele só sabia de ouvir falar: camisinha e sexo oral. Anos depois, ele vai ver filmes pornográficos e se lembrar daquela menina em todas as boas cenas de boquete. Mas uma coisa que ele nunca esqueceu, e que foi muito importante para ele se separar da minha mãe e deixá-la se afundar na negatividade sozinha, foi o que a Raquel disse no meio da conversa da despedida do primeiro encontro.

- Ser prostituta e ser um homem que procura uma prostituta não é demérito para nenhum dos dois. Quase todas as mulheres que estão na prostituição acham que isso é o fundo do poço. A mulher está nova e viciada em bebida, não tem como sustentar o vício, vira prostituta. A mulher está com mais de 30 anos, era sustentada por um homem, perdeu esse homem e não conseguiu outro, vira prostituta. Eu não preciso atender um cliente como se estivesse mantida em cativeiro, ou no lixo. E eu não sou melhor como mulher só porque eu acho que dignidade é sexo com má vontade e não tocar em dois homens na vida. Tem mulher aqui dentro que acredita nisso. Isso me irrita. E outra coisa que me irrita é homem que acredita que homem que procura prostitutas é incompetente. O cara se rebaixa pra família inteira da primeira vaca que dá alguma chance pra ele, finge que não quer o que todo mundo sabe que ele quer, para sustentar uma esposa gorda burra ingrata em troca de amolação e menos de dez fodas no ano depois do quarto ano de casado. E o modelo de homem é ele. Perdedor é você, que não aceitou ficar dependente de má vontade de esposa para ter sexo. Perdedor é você, que é trabalhador, é amável e fode gostoso, mas nunca tinha visto uma mulher ter um orgasmo com você.

Já em outubro, eles se encontraram, o meu pai disse que estava impressionado e grato pelas palavras. Ele contou a ela que tinha mesmo uma esposa gorda, burra, ingrata e nunca viu uma mulher tendo um orgasmo. Ele disse que aquilo foi a coisa mais importante que ele já ouviu na vida. E mostrou aquela minha foto para ela.

CAPÍTULO 3 - 02 DE JUNHO DE 2013

É domingo. A Raquel tinha estado de manhã com os pais e os irmãos a mais de 150 km da casa dela. O pai não a beija no rosto nem deixa ela beijá-lo desde que ele surpreendeu a mocinha, na época com 16 anos, levando uma "facial" no final de uma transa com dois rapazes. Três anos depois, ela contou para os pais e os irmãos: "pessoal, eu não comentei com vocês, tenho dois meses que eu virei puta, dessa vez é por dinheiro mesmo". Mas o carinho continua o mesmo. A casa foi um presente da Raquel ao pai, do projeto à execução (a mãe gostaria muito daquela casa, mas morreu odiando a filha por ser prostituta). Raquel também levou alguns livros para o sobrinho que está cursando Engenharia Civil. O marido e a filha da Raquel também estavam lá.

Eu e alguns amigos fizemos uma festa de aniversário para ela na minha casa. Nós a chamamos para a festa e ela se ofereceu a pagar a comida, os sucos e os refrigerantes (ela tem horror a álcool), mas o marido dela pagou. Eles chegaram, ela, o marido, a filha (que tem 14 anos) e duas colegas dela do segundo emprego. Ela nos apresentou as colegas e amigas, eu conhecia uma delas. E disse para a filha:

- Abigail, aqui não tem nada de trabalho. O que acontecer aqui é por safadeza mesmo.

Ela disse para o marido:

- Tomás, eu quero ver se você tem coragem de comer as minhas amigas na minha frente.

Era uma piada com duplo sentido. Todos rimos.

Nós estávamos conversando, comendo, bebendo (refrigerante, suco,...), a Raquel disse que ia sair, mas voltaria logo. Logo depois, voltamos eu e o marido dela e colocamos um embrulho para presente em cima de uma mesa. Pedimos aos amigos para cantarem parabéns, nós dissemos que ela estava chegando. Enquanto cantávamos, abrimos o embrulho. Era ela, nua. Depois que ela jogou um pedaço do bolo na barriga de um dos rapazes e lambeu, começou o bacanal. O marido dela transou com as amigas. Estávamos nos alternando sempre dois ou três rapazes com cada mulher. A filha da Raquel estava assistindo aquilo. Eu me sentei ao lado dela e ela comentou:

- Ela é minha mãe, uma ótima mãe, eu a amo, mas ela é louca!

Raquel convidou a filha para "se juntar à festa", ela até tirou a roupa, permitiu uma cunilíngua minha e de outro rapaz, gostou, mas não passou disso. Ela ainda era virgem.

Raquel me pediu para tirar uma foto com o celular dela. Ela estava deitada no sofá da minha sala, ainda nua, mas estava com a camisa do uniforme da empresa dobrada cobrindo o corpo. Ela fez uma montagem com aquela foto abaixo de outra, dela nua, tirada e publicada na rede social WhatsApp na sexta-feira. No meio das duas, ela colocou a legenda: "A foto de cima comprometia a imagem da empresa onde eu trabalho. Mas qual empresa mesmo?". Ela publicou logo em seguida no seu perfil do WhatsApp, mas nós só vimos à noite.

Quando estava se despedindo de nós, ela agradeceu a festa e contou a todos: ela foi demitida por telefone no caminho para a nossa festa. Os diretores da empresa descobriram que ela era prostituta depois que viram aquela foto dela compartilhada apenas entre amigos.

CAPÍTULO 4 - 03 DE JUNHO DE 2013

Raquel chegou à obra para se despedir dos amigos, logo no começo do expediente.

- Meus amigos, eu fui demitida. É a quarta vez que isso me acontece pelas minhas ideias sobre castidade! Eu estou acabada! Esta sociedade machista e tradicional quer me levar à prostituição!

Nós rimos pouco. Alguns de nós já sabíamos o que aconteceu.

- Mas, falando sério, eu também tenho uma empresa individual e trabalho fazendo projetos. Enquanto estava aqui, eu peguei pouco trabalho por fora, agora vou ter que procurar mais. Clark, na sexta-feira o seu pai estava com a caminhonete dele estragada e eu prometi comprar outra caminhonete pra ele. Eu achei uma usada em bom estado de conservação, com um preço bom que eu ainda posso pagar. Eu vou comprar, principalmente porque é para trabalho. Eu sei como é ficar com serviço travado por falta de material.

E ela se despediu de nós, já na frente do escritório:

- Eu estou saindo, mas todos vão ficar felizes. Meus inimigos não vão me ver mais e os meus amigos e os filhos dos inimigos vão continuar me vendo, vestida e pelada. Hua, hua, hua, hua, hua!

Ela me contou depois que disse a mesma coisa quando saía do Departamento de Recursos Humanos, ainda naquela manhã, e algumas mulheres queriam bater nela. E que isso a lembrou de um outro caso.

CAPÍTULO 5 - ALGUM DIA DE ABRIL DE 1997

Raquel estava em outro ponto, aquele primeiro tinha sido fechado para um vereador puritano agradar o eleitorado beato. Então, ela e o meu pai perderam contato. Ela comprou uma câmera fotográfica em 94 e daí em diante ela tirava fotos nua ou seminua com cartazes. Ela estava no penúltimo semestre do curso de Engenharia Civil. Ela pediu para uma colega tirar uma foto, o texto do cartaz era: "Me formando engenheira civil, coeficiente de aproveitamento 78,4. Sou estudiosa e honesta, vou me formar sem nenhum professor me fuder".

- Jezabel, pode tirar uma foto minha pra minha família?

- Vai tomar no cu! Eu estou nessa vida porque fui ao fundo do poço, você fazendo universidade está na "vida" e ainda faz piada? Vai ser sem-vergonha assim no Inferno! Se a minha mãe estivesse viva e me visse numa foto dessas, ela só não ia me espancar até a morte porque ia cair dura antes.

- Sei como é, a minha mãe também!

Raquel, logo depois, atendeu dois clientes e um deles tirou a foto, com o cartaz cobrindo o rosto do outro, ambos nus na cama.

Ela estava fazendo um estágio. Uma foto de 94 foi descoberta. O engenheiro chefe, um senhor grisalho bem apresentável, a chamou à sala dele e colocou na mesa com violência a foto com ela nua na cama do quarto com um cartaz escrito "Eu tenho muitos princípios morais para pensar em castidade. Honestidade, amor, cortesia, trabalho etc.".

- Preciso comentar isso aqui? Você acha isso certo? Isso é contra a ética empresarial, isso é antiprofissional, isso é imoral, isso é tosco, isso é nojento, isso é estúpido, isso é ridículo. Você suja a imagem da nossa empresa desse jeito. Eu vou ter que te mandar embora.

CAPÍTULO 6 - 08 DE MARÇO DE 2014

Raquel ia levando a vida com projetos que ela fazia em casa, e atendendo ricos e pobres neste e no outro trabalho, até que os donos de uma empresa de Agrimensura lhe ofereceram uma parceria. Eles a descobriram no Facebook, viram que ela era prostituta, mas só depois descobriram que ela é engenheira civil.

Raquel está há quatro meses na empresa. Já começou levando a mim e alguns amigos. Se ela não tivesse nos chamado, poderíamos estar desempregados. A Construtora Crescente Oriental substituiu a Raquel por uma vadia mais nova com um quinto da competência, mas que era amante de um dos sócios e ele estava querendo encaixar a garota na empresa. Por falcatruas, por incompetência e por pobreza de espírito, a empresa estava decadente, perdia os bons funcionários de todos os cargos porque eram demitidos ou perdiam a paciência.

Era sábado e era confraternização no sítio dos dois donos da empresa (eles são irmãos solteiros). Só cerca de 30 funcionários estavam lá. Alguns não foram só porque Raquel estaria lá. Quem nasceu pro Inferno vê lenha no Jardim do Éden. Mas de todos os funcionários da empresa, ela era a única mulher. Ela pediu a palavra:

- Pessoal, eu queria dar as boas-vindas ao nosso colega que entrou esta semana: Tomás de Aquino de Morais, o engenheiro especialista em projetos viários, o meu marido. Somos tão feitos um pro outro que eu nem precisei mudar o meu sobrenome de solteira. Eu queria te agradecer por estarmos juntos depois de quatro vezes que eu fiquei desempregada. Mais do que o dinheiro, o sustento do nosso padrão de vida, você me ajudou muito em me dar força, em criarmos nossa filha.

Ela parou de falar, abraçou o Tomás, e ele pegou a palavra:

- Raquel, eu tenho muito o que agradecer por você estar na minha vida. Você me ajudou a vir para a Europa Engenharia e Agrimensura antes que eu te dissesse como eu estava começando a me sentir mal na Secretaria Estadual dos Transportes. Você me fez mais bem do que imagina nos 17 anos de casamento. Inclusive quando eu fiquei desempregado quatro vezes e quem aguentou tudo financeiramente foi você. Na primeira vez, os meus pais pensaram que você iria me deixar. Estão esperando o divórcio até hoje. Você também me apresentou esses colegas e amigos, você me acrescentou gente que dá pra conversar, que dá pra ser amigo, que é bom de estar juntos.

Ah, e o meu pai estava lá. Ele queria agradecer pessoalmente pelo presente da Raquel: ele economizou dinheiro com a manutenção da caminhonete nova e ainda conseguiu clientes a mais, então já juntou o valor da compra do veículo e queria reembolsar Raquel. Mas ela disse:

- Deixe como está, gatinho. Este dinheiro vai estar melhor com você do que comigo.

Nós fomos para a piscina, a Raquel disse:

- Esqueci meu biquíni! Mas vou entrar na piscina assim mesmo.

E entrou. Nua. Logo depois, Raquel saiu da piscina e convidou a empregada doméstica, uma senhora de uns 50 anos, que estava perto.

- Vamos pra piscina, moça. Se precisar de um biquíni, eu tenho ali.

O biquíni estava por cima da roupa dela, que estava dobrada em uma cadeira. Mas a empregada doméstica era gorda de seios pequenos, Raquel era magra de seios médios arredondados e uma bunda arredondada. A empregada doméstica não disse nada, mas saiu com cara de "queima ela, Jesus". Nós rimos discretamente.

A Abigail, a filha da Raquel, estava conosco na piscina (de biquíni, esclareça-se). A orgia não foi muita, mas o meu pai dividiu a Raquel com o marido dela e eu tirei a virgindade da Abigail. Os donos da casa nos permitiram usar um quarto. Ela achou ótimo, gozou como se tivesse tomado um choque. Nós voltamos eu segurando a cintura da garota e ela se apoiando no meu ombro esquerdo e a mãe brincou:

- Perdeu a virgindade e não tem nem 15 anos, né? Se eu estivesse de olho, isso não teria acontecido. E então, mocinha, quer aproveitar e brincar com mais um?

- Não, minha senhora, eu sou mulher só de um a um mesmo.

CAPÍTULO 7 - 02 DE JUNHO DE 2015

Era terça-feira. Fizemos uma pequena festa de aniversário para Raquel na empresa, no nosso horário de almoço.

Quando ela estava quase chegando na zona, encontrou a nossa surpresa, uma faixa na rua: "Violência é degradante. Desrespeito é degradante. Exploração é degradante. Preconceito contra a prostituição é feio. Raquel Pureza de Morais, parabéns pelo seu dia. Parabéns pelos seus 40 anos".

02 de junho é o Dia Internacional da Prostituta. No dia 02 de junho de 1975, um grupo de mais de 100 prostitutas ocupou a igreja de Saint-Nizier em Lyon, França, para chamar a atenção para a situação de pressão e descaso da polícia e do governo contra elas, que levou a um aumento da violência de cafetões, clientes e policiais contra as prostitutas. Foi o dia em que ela nasceu.

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