quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Por que políticos são levados na brincadeira e humoristas são levados a sério

Abigail Pereira Aranha

A política brasileira virou palhaçada desde o primeiro mandato do Lula. E não é pela eleição do humorista Tiririca ou do jogador Romário para deputado federal, eles podem até ser inexperientes mas estão dando exemplo até onde podem, pelo menos eles não se envolveram em escândalo nenhum. Há vinte anos atrás, um caixa dois de campanha eleitoral derrubou o presidente Fernando Collor no meio do mandato e até o partido dele mudou de nome. O PT do presidente Lula tinha esquema de comprar apoio de deputados e senadores da oposição, usando dinheiro público, isso descoberto um ano antes da eleição de 2006, e o que acontece? O Lula é reeleito com a terceira maior votação da história da humanidade, faltando pouco para ganhar ainda no primeiro turno.

Não só o presidente, também deputados sabidamente envolvidos no Mensalão também foram reeleitos em 2006 e em 2010. Um deles ia concorrer à prefeitura de São Paulo este ano, e só não foi eleito porque o caso foi julgado (7 anos depois). O Fernando Collor foi eleito deputado e virou amiguinho do governo, também do PT. Temos um deputado procurado pela Polícia Internacional, e que também é aliado do governo. Um levantamento de 2008 para justificar um detector de metais na entrada do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro desenterrou que 100 candidatos às eleições municipais daquele ano estavam sendo ou já foram processados por homicídio (veja esta em "100 assassinos", de J. R. Guzzo, Veja de 03 de setembro de 2008).

E o que os políticos têm feito de molecagem ultimamente? Lei proibindo uso de celular em agência bancária em Minas Gerais. Ah, é pra combater a saidinha de banco. Se vamos marcar todo mundo que usa celular no banco só porque ladrão avisa o comparsa usando celular, os afrodescendentes são 65% da população carcerária. Vagões de metrô exclusivos para mulheres. Segurança? Então vamos fazer vagões exclusivos pra brancos para proteger os bacanas dos negros ladrões? Vamos ter em breve chips nos carros em todo o Brasil, tanto com dados do carro quanto registro de multas e documentação atrasada, para serem lidos em radares. Veja em "Sorria, seu carro está sendo seguido", Estadão de 07 de outubro de 2012, do professor Túlio Vianna (depois da manginada anti-branco da última vez que o lemos, ganhou nosso respeito agora). E já temos um projeto de lei para proibir porte de armas. Armas de brinquedo. Ah, e a PEC 372/2005 do deputado José Divino do PMDB do Rio de Janeiro, para proibir "o implante de circuitos eletrônicos miniaturizados em partes do corpo humano que permitam a identificação e a localização de pessoas, ainda que com fins de pesquisa ou terapêuticos", foi arquivada. Esses são só alguns exemplos.

Enquanto isso, nas eleições de 2010 o Tribunal Superior Eleitoral proibiu os humoristas de fazerem piadas com candidatos. Mas não só o governo levava os humoristas a sério. Já tivemos humoristas processados por piadas. E o engraçado é que isso só acontece com quem faz piadas boas. Os piadistas idiotas, os dos clichês depreciativos, os da ridicularização do outro, os do bolo na cara, continuam tranquilos, com plateia e geralmente sem processos. Piada besta é humor. Piada inteligente é crime. A gente ia dar alguns exemplos, mas o Alex Castro do Papo de Homossexual Enrustido já fez isso na "Carta aberta aos humoristas do Brasil". Para ele, fazer piada que não-branco, mulher ou não-hétero não gosta é ser cúmplice de crimes, inclusive ASSASSINATO. E não são poucos que pensam como ele, ou que falam como ele.

E não é só coincidência no tempo, as duas coisas, políticos levados na brincadeira e humoristas levados a sério, estão ligadas.

O Brasil não entrou só em decadência política, também entrou em decadência moral, intelectual e de senso da realidade. Mas não foi no governo do PT, a própria eleição do Lula foi fruto dessa decadência. O Brasil nunca foi exemplo moral, está certo, mas se antes a relação com a corrupção política era de vista grossa ou desconhecimento, agora virou cumplicidade. O Bolsa Família do governo PT, que é o Fome Zero do governo Fernando Henrique Cardoso mal continuado, o programa Minha Casa Minha Vida e os mais de 10 milhões de empregos (isso dá uns 5% da população brasileira) no serviço público são o mensalão dos pobres. Como alguém já disse, defender políticos corruptos passou do limite da burrice e já virou imoralidade. Por isso alguns acharam importante criar a Lei da Ficha Limpa, com o erro de pensar só na classe política. Outro erro de quem defende é que fazer a Lei da Ficha Limpa para acabar com a corrupção é como todos os times de futebol do Brasil pedindo para a CBF proibir o Flamengo de jogar o Campeonato Brasileiro para não ganhar.

Mas a coisa mais importante na vida de um espírito pequeno é ser levado a sério. A putinha pode virar executiva de uma grande empresa bancada pelo pai, com empurrãozinho de gente influente, comprando a tese da pós-graduação e ainda trepando com o gerente até quando convier. O negro que nunca aprendeu a diferença entre logaritmo e arcotangente pode se formar em Ciência da Computação pelo sistema de cotas e trabalhar num setor de informática do governo do estado. O homossexual pode chegar a deputado federal aproveitando a fama que conseguiu pela imprensa e o ativismo pelo Movimento LGBT. Essas pessoas são como uma galinha no alto de um poste: asas ela têm, mas não pra voar tanto. Mas todos eles sabem da própria mediocridade e de onde não deviam ter saído, nenhum deles é idiota o suficiente para acreditar na própria mentira, a cirurgia plástica midiática que faz milhares ou milhões de pessoas pensarem que eles são tão formidáveis. E às vezes a rainha não está nua pensando que está com uma roupa que só pessoas acima da média enxergam, nem está fingindo que está com essa roupa especial mas sabendo que está nua de verdade, mas às vezes a rainha está com vestido decotado com bojo e alguém que flagra as bolinhas murchas ridículas fotografa o decote (nós não gostamos de ver corpo de mulher, mas trocamos o rei nu pela rainha nua porque além de a maioria dos nossos leitores ser de homens, homem rico e poderoso geralmente é velho, feio e tem uma tragédia de corpo). Não que isso acabe com a vida de uma galinha no poste, mas nenhuma bajulação é suficiente quando a voz interior diz "você não é isso tudo, idiota", qualquer sinal de verdade pode estragar o dia.

É por isso também que piadas de mau gosto sobrevivem. Uma típica piada que fala mal de mulher, loura, pobre, negro, nordestino pode "ser rida" pelos mesmos mulher, loura, pobre, negro, nordestino. Por quê? Porque é só uma piada? Não, porque é uma caricatura grosseira, está na cara que é mentira. A loura não ri da piada de loura porque não entendeu a piada (essa é uma piada de loura que não nos lembramos onde vimos), ela ri porque a loura da piada não existe, ou ela em particular não está entre as que são parecidas com a loura da piada. Então é mais ou menos como uma fofoca ou como zoar um conhecido.

Por isso também que dizeres e desenhos que depreciam brancos, homens, ricos ou a civilização europeia podem ser chamados de piada, mesmo que o autor fosse caçado como uma barata se a "piada" depreciasse não-brancos, mulheres ou não-heterossexuais. É a inveja em ação.

Mas se por trás da piada estão verdades indesejadas, a coisa fica feia. Exemplo: por que só mulher feia dá queixa de estupro? Por que não vemos mulher "gostosa" dizer que foi estuprada?

E quando a piada sem graça traz mais protestos? Quando tem mulher boazuda ou insinuação sexual. É só a piada ou é também a revolta de lésbicas horrorosas indesejáveis com horror a pica consigo mesmas e com a alegria dos homens?

"A mordaça aumenta a mordacidade", essa é do mestre Millôr Fernandes. Eu diria que a recíproca também é verdadeira.

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