terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A ex-prostituta e ex-atriz pornô Amanda Rola com seus netos

Abigail Pereira Aranha

É uma tarde normal com tempo ameno, uma senhora de 69 anos está em uma visita de família no ano 2060. Ela ainda é saudável, lúcida, inteligente e forte, as quatro coisas juntas são algo excepcional para a idade dela nesta época. Mais excepcional ainda, ela tem poucas rugas, ainda tem muitos cabelos pretos e tem uma voz que já seria bonita se ela só tivesse 25 anos.

Ali ela está com o marido, também de 69 anos, um dos dois filhos e a esposa dele, os 5 netos, 7 amigos deles e o pai e a mãe de dois deles. O neto mais velho tem 20 anos, depois vem a neta de 18. Dos 5 netos e 7 amigos deles, estes são os únicos que não são adolescentes.

Eles estavam vendo alguns vídeos e fotos de família e recordações diversas em um álbum digital em uma televisão digital de 50 polegadas. Quando a anciã está acessado o gerenciador de arquivos entre uma foto e outra, um dos rapazes, Benedito, observa uma pasta e pergunta o que é. Ela responde:

- Minhas coisas de putaria. Quer ver?

O rapaz, a irmã e os pais deles não sabiam e achavam que fosse mais uma brincadeira, já que ela era muito simpática e brincalhona. Os outros já sabiam e estavam habituados.

- Essa aqui foi uma das fotos da minha primeira vez tirada com telefone celular. Eu tinha 14 anos, foi com esse rapaz e o que tirou a foto.

Ela passa para outra foto.

- Esse aqui foi o que tirou a outra foto, e quem tirou essa foi o que apareceu na outra.

Ela passou para um vídeo.

- Com dois de uma vez eu tenho este filme aqui, hehehehe. Este é profissional, foi o meu primeiro, eu já tinha feito 18 anos no mês anterior.

Ela passou o começo, a parte das legendas. Ela pausa.

- Eu aqui.

Ela apontou para o nome: Amanda Rola. Os quatro que ainda não sabiam que era ela não disseram nada. Benedito estava querendo saber mais, mas não sabia nem o que perguntar. Ele já tinha ouvido falar dela e tinha uma lembrança razoável de uma foto dela de biquíni, mas não imaginava que ela fosse a dona Amanda esposa do Vitório engenheiro (ou melhor, até pensou, mas se censurou por isso). Os pais e a garota acharam aquilo tudo um cinismo tão grande que não tiveram reação.

- Essa pasta aqui é misturada. Tem fotos minhas com amigos, minhas pelada amadoras, minhas pelada profissionais como essa aqui...

Ela mostra uma com três homens. Enquanto o rapaz estava pensando "que louco, véi!", a irmã e os pais se sentiam em uma alucinação.

- ... tem vídeos meus feitos com telefone celular, tem vídeos meus profissionais. Alguns desses arquivos foram clientes meus que fizeram, como essa foto aqui.

Ela vai rapidamente para uma foto caracterizada de Chapeuzinho Vermelho. Não aparece "nada", mas ela usa um vestido com um decote de que os seios enormes ameaçam sair e que mal cobre os quadris, mostrando a bunda ainda maior.

- Ah, sim, eu fiz o primeiro vídeo com 18, virei prostituta aos 19, comecei a trabalhar (trabalhar com outra coisa) aos 20. Mas quando eu fui procurar trabalho e fui entrevistada, eu nunca escondi nada. Eu usava o meu nome nos filmes e na zona, eu falei que era prostituta, falei do filme, pelos dois anos do meu primeiro trabalho, digamos, normal eu trabalhei como prostituta também.

O caso que Amanda vai contar, a família já conhece.

- Uma vez teve um babaquinha que me descobriu, ele era amigo de uma colega minha. Ela era feia, mal humorada pra caramba. Aí esse velho contou pra essa minha colega, ela fez fofoquinha dentro da escola onde eu trabalhava (eu trabalhava na secretaria), poucos dias depois ela arrumou uma picuinha no trabalho e o assunto saiu do nada. Aí eu falei: "Ih, o diretor já sabe. Vai fazer ele me mandar embora pra eu ganhar mais que você e dar pro seu marido o que ele não tem em casa?". Depois eu fui saber que um aluno que já viu o meu filme ouviu a conversa e comentou com os colegas, todo mundo rindo da cara dela pelas costas. Três semanas depois, o marido dessa colega descobriu que o filho que ela estava grávida quando se casou não era dele e foi esperá-la no portão da escola. Ele largou ela, humilhou a distinta na frente de todo mundo, e ela se mudou da cidade. Depois que o diretor que era meu amigo saiu da escola, entrou uma velhota que não foi com a minha cara, eu saí e ela chamou a outra de volta. Ah, sim, falando nisso...

Amanda volta à pasta de vídeos e se prepara para abrir um.

- Eu tinha um fan clube nessa escola (só de rapazes). Esse aqui foi uma brincadeira que eu fiz com uns amigos. Aula de educação sexual com modelo real. Um dos rapazes falou de gravar e eu deixei. Mostrei tudo. Mas eu era boa em Biologia e a aula também foi sobre sistema muscular, os cinco sentidos, e outras coisas. Mas aí não foi gravada. Eu comecei pela educação sexual para relaxar a turma, mas o resto eu também explicando nuazinha. Um dos rapazes ia fazer prova de Biologia de coisa que eu estava explicando, tirou até quase total na prova. A turma tinha quatro adolescentes e dois maiores de 18 anos, a sorte é que quem aparece no vídeo comigo são só os dois maiores. Quando o vídeo vazou e foi um grupo de pais querendo que eu saísse da escola, eu já tinha saído no dia anterior. Se eles me achassem lá, iam querer me queimar com vestido comprido, porque me ver nua e pendurada podia ter gente gostando.

À essa altura, todos os homens e a nora de Amanda estão esboçando um riso, mas os pais e a irmã de Benedito nem notam, porque já não estão sabendo se estão num pesadelo, numa alucinação ou numa visão das previsões de alguns pregadores provincianos famosos. Eles estavam pensando em sair dali com Benedito e cortar qualquer contato com a família logo quando ela começou a falar do conteúdo, mas Amanda era tão agradável e já tinha dito tantas coisas envolventes em outras ocasiões que isso só ia desmoralizá-los ainda mais.

Ela mostra rapidamente um outro vídeo. A cena dela é com quatro rapazes.

- Esse aqui foi o meu segundo filme. Eu tinha 22 anos, eu estava só como prostituta e apareceu a proposta. Quando acabamos o filme, eu tinha 23 anos, fiz o vestibular para Química, passei e no mês em que eu entrei na universidade foi lançado o filme. O pessoal que viu o filme e estudava na universidade viu Amanda Rola no filme, viu a Amanda na universidade e começou o falatório pro resto do curso. Teve até uma vez que uma professora do segundo período falou bobagem dizendo que eu era vergonha pra minha família. Eu só respondi: "Quer que eu dê nome de mulher que apanha do marido nesta sala? Isso é menos vergonha que ser prostituta ou atriz pornô? Quer que eu dê nome de mulher nesta universidade que eu nunca ouvi alguém falar bem e só continua no emprego por causa de parente e porque puxa saco de chefe? Tem móvel da minha casa que eu ganhei de cliente. E as moças que transam com professor pra passar na matéria? Papai e mamãe vai gostar se souber?". Essa era até nova, trinta e poucos anos, mas era uma católica magrela esquisita, mas não me encheu mais. Eu até comecei a ir melhor na matéria dela. Aaaah, tem a minha pasta dos podres.

Ela vai rapidamente para outra pasta. Abre uma foto.

- Essa foto é de um protesto de moças que se denominavam vagabundas e se dizia contra o machismo. Esta aqui segurando faixa com peito de fora foi gerente de um banco grande. Foi colega de república de uma amiga minha na universidade. Quando ela começou a crescer no banco, um amigo meu soltou a foto e ela fez uma tramoia que foi até polícia na casa dele pra apreender o computador. Só que eu tinha pedido uma cópia da foto no dia anterior. Mas compartilhei com amigos também e a foto continuou correndo, ficou até pior pra ela.

Abre outra foto.

- Essa pilantra aqui fez filme pornô também e depois que ficou gorda e horrorosa e já estava nos trinta e poucos virou pastora. Disse que teve que usar drogas para fazer os filmes, mas ela já era viciada. Só falou invencionices, que só serviram pra ajudar quem já era contra a pornografia, que era feminista, lésbica, feiosa e homem reprimido. Disse que depois dos filmes, quando virou prostituta, foi explorada pelo crime organizado. Só não disse que a maioria das prostitutas não se encaixava nestes casos. Ah, e a foto foi de uma palestra dela em uma igreja. Eu sempre fui ateia e fui lá só pra ver as abobrinhas. Quando ela me viu no meio do povo, eu era até mais velha que ela mas tinha quase a mesma cara que na juventude, ela começou até a falar mais manso contra a pornografia e a prostituição, porque ela ia abrir pra perguntas e respostas depois.

Abre um vídeo.

- Eu estava filmando uma outra coisa, aí eu peguei ela tratando muito mal um amigo meu muito gente boa, trabalhava de dia e estudava à noite, os pais não podiam ajudar muito financeiramente. Não sei por que eu filmei, mas logo depois eu vi ela saindo de carro de luxo com um velhote cretino que era alto funcionário da universidade. Aí, eu estava com um amigo na hora, fomos atrás deles de táxi. Eu sabia até para onde eles estavam indo, não sei como mas eu sabia. Era um motel de luxo. E fomos filmando desde a entrada no motel.

O vídeo mostra a placa do carro identificável. Mostra os dois entrando no motel, a certa distância, mas dá para ver que o homem é um idoso careca com bigode grisalho e a moça é uma loura magra de cabelos ondulados, olhos um tanto grandes e nariz fino. Corte. Pode-se ouvir algumas risadas de mulher e alguns gemidos por trás da porta que aparece na imagem.

- Isso foi numa sexta-feira. Eu arrumei melhor o material e fiz questão de soltar ainda no sábado. Na segunda-feira, o mal já estava feito. A universidade inteira estava falando do caso. Fui ouvir entre os comentários que ela fazia programas com professores, funcionários e alunos ricos da universidade. A moça dava uma de santarrona, ficou desmoralizada. Ah, e ela também falava muita bobagem com o meu nome.

Ela vai passando pelos arquivos, fotos e vídeos, e contando os casos.

- Ah, eu fiz o estágio do meu curso, eu tive colegas que viram os meus vídeos e as minhas fotos que eu tinha. E eu sei sempre fiz brincadeiras e falei safadeza nos trabalhos que eu tive. Eu me formei com 28 anos, com 29 eu fiz o terceiro filme. Quando comecei o filme, eu já tinha dois anos de casada. Aaaaaah, espera, deixe eu te contar do casamento. Eu e o meu marido nos conhecemos na universidade, mas ele era irmão de um funcionário de uma lanchonete dentro do campus, nos encontramos por acaso. Ele teve que trabalhar cedo, só depois ele pode pensar em ser engenheiro mecânico, mas já estava um tanto sem ânimo. Aí, a gente estava conversando, ele foi me falando dele, eu me propus a dar aulas particulares pra ele para o vestibular. Foi quase um ano. E começamos a namorar também nessa época. Com um mês de aulas eu falei com ele: "você é um rapaz esforçado, inteligente, de caráter, eu gostei de você, eu sei que você gostou de mim também e está afim de me comer". Aí eu tirei o vestido, não tinha nada por baixo, e fui pra cima dele. E disse pra ele: "Você já ouviu falar em casamento aberto?". Como ele fez cara de que não eu expliquei: "A gente se casa mas você pode transar com outras mulheres e eu posso transar com outros homens. Você aceita, gatinho?". Mas teve safadeza e estudo de verdade. Ele passou no vestibular, quase ele entrando e eu saindo. E quando a gente foi se casar, foi com seis meses de namoro, teve gente que pensou até que eu estava grávida. Aí, na cerimônia a irmã do meu marido disse que eu tinha feito filmes pornôs e era prostituta. Eu já estava pronta, eu sabia que alguém ia vir com essa. Do pessoal só alguns amigos sabiam. Só que ele disse que já sabia de tudo, que eu mesma tinha contado pra ele e eu ainda convidei os convidados para um bacanal depois da festa. Aí estragou a cerimônia. Só os nossos amigos mais chegados não saíram na hora. Tem parentes dele que dessa época há quarenta anos atrás até hoje não falaram com a gente dez vezes. Mas a parte da família que vale a pena é amiga nossa.

Ela mostra um casal muito idoso, no álbum de família.

- O meu pai e a minha mãe, falecidos. Eles estavam no casamento, só não ficaram na parte da safadeza. Eu amava os dois e eles me amavam. Eu tive muito orgulho deles e eles diziam ter muito orgulho de mim. Eles me contaram que três senhoras já disseram que se uma filha devassa como eu era motivo de orgulho elas preferiam ter motivo de vergonha. Uma teve uma filha que tentou dar um golpe da barriga em um milionário e ele fez exame de DNA que comprovou que o bebê não era do filho dele, um dia a criança morreu por maus tratos e a mãe foi presa. Outra teve duas filhas presas por fraude com dinheiro público, e pelo que gente de dentro do órgão dizia descobriram até pouco. E a outra teve uma filha que era namorada de um traficante de drogas e a família teve que sumir da cidade levando a roupa do corpo por causa de ameaça de morte do namorado que pensou que estava sendo traído. Satanás era conosco! Hua, hua, hua, hua, hua!

Amanda recapitula que depois ela teve um filho biológico aos 32 anos, que estava trabalhando em outra cidade; aos 34 ela e o marido adotaram um menino de seis anos, com problemas cardíacos, que era o que estava ali; ela ainda era prostituta até os 55, mas na maior parte desses anos ela basicamente atendia os clientes antigos, já que tinha os filhos e empregos na indústria química.

- E quando eu ia buscar os meus filhos na escola, às vezes eu encontrava homens com quem eu tinha conversas rápidas e que me diziam que tinham visto os meus vídeos na juventude e que na conversa comigo também me acharam simpática, ou inteligente, ou de caráter, dependia do caso. As mulheres que me ofendiam eram no mínimo de cara antipática, e os homens que me ofendiam eram casados com elas. E às vezes o coleguinha do meu filho era filho de um cliente ou ex-cliente meu. Aí a gente combinava de não comentar muito por aí. Ah, mas o "seu" Vitório também teve o extra dele. Por exemplo, o aniversário dele de 50 anos eu combinei com uma grande amiga minha ex-colega de universidade de 45 anos e uma amiga de 30 de fazer uma surpresa pra ele. Era uma aula particular de Matemática para um concurso público. Quando ele viu as duas de vestido largo amarrado com cinta, ele já viu que tinha dedo meu na parada. Aí eu apareci com o bolo. E o primeiro pedaço da cobertura do bolo foi para o aniversariante, nos peitinhos das meninas. E ele dá conta de duas mulheres ao mesmo tempo até hoje. Ah, falando de 50 anos...

Amanda volta para a pasta das putarias. Abre um vídeo e vai para uma cena com quatro rapazes perto de 20 anos.

- Teve mais esse filme, o último. "Mulheres de 50". Eu fiquei sabendo que ia ser feito, mas me chamaram também. Esse foi mais rápido. Tirei um mês de férias, nesse mês eu fiz a minha participação. E esse rapaz moreno é filho de um rapaz que estudou na escola onde eu trabalhei. Ele, o pai, achou muito legal. Quando eu voltei para o trabalho, uma outra cinquentona que o pessoal achava muito bonita ficou sabendo do filme e foi a primeira a fazer intriga, mas o fan clube segurou as pontas.

Ela conclui dizendo que nunca escondeu o passado erótico nem as ideias "avançadas", e denunciava quem escondia o passado e mascarava os seus erros. Estes últimos a odiavam e tentavam prejudicá-la onde pudessem, mas pelo que ela era ganhou amigos valiosos, cuja amizade ela também valorizava.

Então, ela chama Benedito e os outros para um lanche na varanda. Se os pais e a irmã dele estivessem menos atordoados, teriam medo de pegar uma doença venérea só de tomar a limonada.

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